quarta-feira, 12 de setembro de 2018

UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE O LIVRO “A NOITE DO CONFESSOR” E ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE SEU AUTOR, TOMÁS HALÍK



O padre checo Tomás Halík, professor na Universidade Charles, em Praga, tem se tem revelado um dos teólogos contemporâneos mais originais. Ele fala para o mundo contemporâneo, dirigindo-se tanto a crentes como a não-crentes. Nasceu numa família não-crente, tendo-se convertido ao catolicismo com 18 anos por influência de leituras de G. K. Chesterton e Graham Greene (os dois também convertidos ao catolicismo). Foi ordenado padre clandestinamente, tendo pertencido à “Igreja subterrânea” do Leste e sido conselheiro de Václav Havel. Hoje é autor de livros de larga circulação internacional como “Paciência com Deus”, “A Noite do Confessor”, “O meu Deus é um Deus ferido” e, acabado de sair entre nós, “Quero que Tu sejas!” (todos eles nas Paulinas).
Longos anos dedicados à confissão e escuta espiritual têm permitido a Tomáš Halík acompanhar feridas e fragilidades, perguntas e vazios interiores que tantos de nós, em algum momento, vivemos. Mas não só. Nos dramas percorridos individualmente, ele vai constatando linhas persistentes e comuns.
As crises interiores não se resolvem escondendo-as debaixo do tapete. Se atravessadas e vividas elas podem constituir janelas de oportunidade para Deus e para a própria pessoa que as vive. O convite é, por isso, a não ficar numa visão acomodada de Deus e a redescobrir o que significa procurá-lo com a verdade do que somos.
Este são os pontos de partida para o livro "A noite do confessor - A fé cristã numa era de incerteza" - põe-nos directamente em contato com a proximidade que faz de nós uma entrega ao Mestre, numa atitude perante a realidade com consciência e sensação, que se exprime pelo Fundamental.
A partir da sua experiência de sacerdote, Tomás Halík vai contando algumas das suas experiências, tirando daí propostas para reflexão pessoal. Aquilo que considero mais importante ao longo do livro é a defesa que Tomás Halík faz de certos atributos que, mesmo no seio cristão, muitas vezes abandonamos, pois achamos que são sinal de uma personalidade fraca e de um cristianismo fraco: a fé discreta, o silêncio, a contemplação, a alegria interior, a humildade.
Em particular, uma história em “A Noite do Confessor”, sobre ciência e religião. Um amigo do autor, que reunia três atributos – físico, católico e boa pessoa –, costumava ser convidado para retiros do clero para palestrar sobre os avanços da física contemporânea. E ele lá transmitia as últimas sobre o Universo: o Big Bang, a unificação das forças, o bosão de Higgs (impropriamente chamada “partícula de Deus”), etc. No final de um dessas encontros, os padres pediram-lhe que lhes desse, como “cientista crente”, uma prova científica, ainda que minúscula, da existência de Deus, para eles poderem usar nas suas homilias. O físico ficou muito consternado por não conseguir corresponder ao pedido.
Quem estava equivocado, diz Halík, eram os seus colegas padres: eles nunca poderiam, numa conferência de um físico, mesmo católico e boa pessoa, aprender algo que pudesse melhorar a sua crença em Deus ou, por extensão, dos seus fiéis. Reitera esta ideia de um modo muito claro: “O pedido feito pelos sacerdotes de uma prova minúscula não indica apenas uma incompetência possivelmente desculpável, mas também, de forma mais deprimente, uma incompetência teológica bastante menos desculpável e, em particular, uma fé fraca e doentia.” Os padres eram afinal homens de pouca fé... De facto, a teoria do Big Bang não constitui uma prova científica da existência de Deus. A criação da ciência e a criação do Génesis são bastante diferentes.
Quem pensa que são aparentadas está eivado do erro teológico dos inquisidores que condenaram Galileu. A existência de Deus não é uma questão do domínio da ciência. Halík cita Santo Agostinho: “Se compreendeis não é Deus”. E comenta: “Se consegues entender (e até “provar”!), podes ter a certeza absoluta que não é Deus”. Deus é, para o teólogo checo, um mistério, não uma resposta, mas sim uma pergunta difícil, que é como quem diz uma procura permanente.


“Estou profundamente convencido de que não devemos ocultar as nossas crises. Não devemos escapar nem esquivarmo-nos delas. E também não devemos deixar que nos assustem. Só depois de termos passado por elas poderemos ser «remodelados» num estado de maior maturidade e sabedoria. Neste livro, gostaria de demonstrar que a crise no mundo à nossa volta, e também as «crises religiosas» […], são janelas imensas de oportunidade que Deus abre para nós. São desafios para nos «fazermos ao largo». Considero o despertar dessa atitude frente à vida – não evitando as crises, mas tomando a nossa cruz – um dos mais valiosos contributos o Cristianismo. O Cristianismo não é sobretudo «um sistema de textos dogmáticos», mas um método [no grego, significa «um caminho»], um caminho, um itinerário. Seguindo o caminho percorrido por Aquele que não escapou da escuridão do Getsémani, de Sexta-feira Santa, nem da «descida aos infernos» de Sábado Santo.”


O livro atrai pelo seu título, até pela sua capa, mas sobretudo pelo seu conteúdo. Com uma simplicidade desarmante, T. Halík leva-nos a refletir sobre o lugar da fé cristã no mundo atual, sobretudo no Ocidente. Sem triunfalismos, sem complexos de superioridade, sem artifícios: simplesmente, uma visão inteligente sobre o mundo e um convite a um diálogo franco. Tudo isto acompanhado de uma escrita vigorosa, que não deixa ninguém indiferente. Para gente que anda à procura.


No caso vertente, “A Noite do Confessor”, fala-nos não tanto da sua experiência como confessor, mas mais, do que essa auscultação lhe faculta como inquirição do mundo como espaço humano da fé num querer marcado de fragilidade. «A fé de que se fala é paradoxal por natureza – diz-nos Halík. – Temos, portanto, de usar paradoxos para escrever sobre ela com honestidade e de modo não superficial, e só a podemos viver como um paradoxo. (…) Gostaria de meditar sobre esses mistérios da fé – bem como sobre muitos problemas do nosso mundo, iluminados por tais mistérios – com a ajuda de duas pistas – duas afirmações paradoxais: “Ao homem é impossível, mas a Deus tudo é possível”; a segunda é de São Paulo, “pois quando sou fraco, então é que sou forte”.»

E sobre os conflitos globais, Halík escreve ainda algo que merece a nossa reflexão:

“A guerra santa não existe – só a paz é sagrada. Se toda a gente seguisse o princípio de «olho por olho», o mundo inteiro em breve estaria cego. Devemos quebrar de uma vez por todas a perigosa espiral da vingança e da retribuição. Se quisermos que o nosso mundo seja curado, já não nos podemos apoiar na lógica de «assim como tu me fizeste, também eu te faço a ti». Devemos aprender a lógica de «assim como Deus me fez, também eu te faço a ti» – o caminho do perdão e da reconciliação.”


Cristo é muito mais que um herói de Hollywood. O mistério da sua Paixão não pode ser captado com a objectiva de uma máquina de filmar (p.258), porque a sua Paixão continua evidente nos dias de hoje, uma vez que a Cruz não significa a ausência de Deus, mas que Deus coloca-se ao nosso lado, num acto de plena solidariedade humana.

“A cruz não é uma demonstração de violência, de sofrimento e de morte, mas pelo contrário, é uma mensagem de amor, de um amor mais forte que a própria morte.” (p.254)

Por isso, e para terminar, uma das mais belas formas de expressarmos a nossa fé, é o beijo paradoxal que damos à Cruz de Cristo nesta celebração. Um beijo no qual revemos as nossas próprias feridas e onde reconhecemos que a fé não expressa o medo da morte mas antes o desejo da vida. Por tudo isso, deixo-vos a pergunta: seremos capazes de abrir os olhos e de nos comprometermos com os beijos de compaixão a dar em tantos rostos sofredores?
É um paradoxo: apesar de apostarem na dúvida e incertezas da fé, os livros de Halík ajudaram-me a dar dois ou três passos na direção do deserto. A Noite do Confessor” é um livro provocador sobre “a fé cristã numa era de incerteza”, que só deixará indiferente quem não tiver coragem de o ler com honestidade. Lê-se com prazer este livro, com notas inesperadas de um humor amadurecido. É fruto do percurso espiritual de quem não abdica da cultura que criámos, da racionalidade, da individualidade e do corpo como “missão” a construir, quando nos convoca à esperança. Uma reflexão de coração aberto, duma inteligência excepcional, por um pastor dos que se embrenham profundamente no cheiro e no viver das suas ovelhas.

REFERÊNCIAS

HALÍK, Tomás. A Noite do Confessor: A fé cristã numa era de incerteza. Lisboa: Paulinas Portugal, 2014. 336 p. ISBN: 9896733635.




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