O padre checo Tomás
Halík, professor na Universidade Charles, em Praga, tem se tem revelado um dos
teólogos contemporâneos mais originais. Ele fala para o mundo contemporâneo,
dirigindo-se tanto a crentes como a não-crentes. Nasceu numa família
não-crente, tendo-se convertido ao catolicismo com 18 anos por influência de
leituras de G. K. Chesterton e Graham Greene (os dois também convertidos ao
catolicismo). Foi ordenado padre clandestinamente, tendo pertencido à “Igreja
subterrânea” do Leste e sido conselheiro de Václav Havel. Hoje é autor de
livros de larga circulação internacional como “Paciência com Deus”, “A
Noite do Confessor”, “O meu Deus é um
Deus ferido” e, acabado de sair entre nós, “Quero que Tu sejas!” (todos eles nas Paulinas).
Longos anos
dedicados à confissão e escuta espiritual têm permitido a Tomáš Halík
acompanhar feridas e fragilidades, perguntas e vazios interiores que tantos de
nós, em algum momento, vivemos. Mas não só. Nos dramas percorridos
individualmente, ele vai constatando linhas persistentes e comuns.
As crises
interiores não se resolvem escondendo-as debaixo do tapete. Se atravessadas e
vividas elas podem constituir janelas de oportunidade para Deus e para a
própria pessoa que as vive. O convite é, por isso, a não ficar numa visão
acomodada de Deus e a redescobrir o que significa procurá-lo com a verdade do
que somos.
Este são os pontos
de partida para o livro "A noite do
confessor - A fé cristã numa era de incerteza" - põe-nos directamente em contato com a proximidade que faz de
nós uma entrega ao Mestre, numa atitude perante a realidade com consciência e
sensação, que se exprime pelo Fundamental.
A partir da sua experiência
de sacerdote, Tomás Halík vai contando algumas das suas experiências, tirando
daí propostas para reflexão pessoal. Aquilo que considero mais importante ao
longo do livro é a defesa que Tomás Halík faz de certos atributos que, mesmo no
seio cristão, muitas vezes abandonamos, pois achamos que são sinal de uma
personalidade fraca e de um cristianismo fraco: a fé discreta, o silêncio, a
contemplação, a alegria interior, a humildade.
Em particular, uma
história em “A Noite do Confessor”,
sobre ciência e religião. Um amigo do autor, que reunia três atributos –
físico, católico e boa pessoa –, costumava ser convidado para retiros do clero
para palestrar sobre os avanços da física contemporânea. E ele lá transmitia as
últimas sobre o Universo: o Big Bang, a unificação das forças, o bosão de Higgs
(impropriamente chamada “partícula de Deus”), etc. No final de um dessas
encontros, os padres pediram-lhe que lhes desse, como “cientista crente”, uma
prova científica, ainda que minúscula, da existência de Deus, para eles poderem
usar nas suas homilias. O físico ficou muito consternado por não conseguir
corresponder ao pedido.
Quem estava
equivocado, diz Halík, eram os seus colegas padres: eles nunca poderiam, numa
conferência de um físico, mesmo católico e boa pessoa, aprender algo que
pudesse melhorar a sua crença em Deus ou, por extensão, dos seus fiéis. Reitera
esta ideia de um modo muito claro: “O
pedido feito pelos sacerdotes de uma prova minúscula não indica apenas uma
incompetência possivelmente desculpável, mas também, de forma mais deprimente,
uma incompetência teológica bastante menos desculpável e, em particular, uma fé
fraca e doentia.” Os padres eram afinal homens de pouca fé... De facto, a
teoria do Big Bang não constitui uma prova científica da existência de Deus. A
criação da ciência e a criação do Génesis são bastante diferentes.
Quem pensa que são
aparentadas está eivado do erro teológico dos inquisidores que condenaram
Galileu. A existência de Deus não é uma questão do domínio da ciência. Halík
cita Santo Agostinho: “Se compreendeis
não é Deus”. E comenta: “Se consegues
entender (e até “provar”!), podes ter
a certeza absoluta que não é Deus”. Deus é, para o teólogo checo, um
mistério, não uma resposta, mas sim uma pergunta difícil, que é como quem diz
uma procura permanente.
“Estou profundamente convencido de que não devemos ocultar as
nossas crises. Não devemos escapar nem esquivarmo-nos delas. E também não
devemos deixar que nos assustem. Só depois de termos passado por elas poderemos
ser «remodelados» num estado de maior maturidade e sabedoria. Neste
livro, gostaria de demonstrar que a crise no mundo à nossa volta, e também
as «crises religiosas» […], são janelas imensas de oportunidade que Deus
abre para nós. São desafios para nos «fazermos ao largo». Considero o
despertar dessa atitude frente à vida – não evitando as crises, mas
tomando a nossa cruz – um dos mais valiosos contributos o Cristianismo. O
Cristianismo não é sobretudo «um sistema de textos dogmáticos», mas um método [no grego, significa «um caminho»],
um caminho, um itinerário. Seguindo o caminho percorrido por Aquele que
não escapou da escuridão do Getsémani, de Sexta-feira Santa, nem da
«descida aos infernos» de Sábado Santo.”
O livro atrai pelo seu título, até pela sua capa, mas sobretudo
pelo seu conteúdo. Com uma simplicidade desarmante, T. Halík leva-nos a
refletir sobre o lugar da fé cristã no mundo atual, sobretudo no Ocidente. Sem
triunfalismos, sem complexos de superioridade, sem artifícios: simplesmente,
uma visão inteligente sobre o mundo e um convite a um diálogo franco. Tudo isto
acompanhado de uma escrita vigorosa, que não deixa ninguém indiferente. Para
gente que anda à procura.
No caso vertente, “A Noite
do Confessor”, fala-nos não tanto da sua experiência como confessor, mas
mais, do que essa auscultação lhe faculta como inquirição do mundo como espaço
humano da fé num querer marcado de fragilidade. «A fé de que se fala é
paradoxal por natureza – diz-nos Halík. – Temos, portanto, de usar paradoxos
para escrever sobre ela com honestidade e de modo não superficial, e só a
podemos viver como um paradoxo. (…) Gostaria de meditar sobre esses mistérios
da fé – bem como sobre muitos problemas do nosso mundo, iluminados por tais
mistérios – com a ajuda de duas pistas – duas afirmações paradoxais: “Ao homem é impossível, mas a Deus tudo é
possível”; a segunda é de São Paulo, “pois
quando sou fraco, então é que sou forte”.»
E sobre os conflitos globais, Halík escreve ainda algo
que merece a nossa reflexão:
“A guerra santa não existe – só a paz é sagrada. Se toda a gente
seguisse o princípio de «olho
por olho», o mundo inteiro em breve
estaria cego. Devemos quebrar de uma vez por todas a perigosa espiral da
vingança e da retribuição. Se quisermos que o nosso mundo seja curado, já
não nos podemos apoiar na lógica de «assim como tu me fizeste, também eu
te faço a ti». Devemos aprender a lógica de «assim como Deus me fez,
também eu te faço a ti» – o caminho do perdão e da reconciliação.”
Cristo é muito mais
que um herói de Hollywood. O mistério da sua Paixão não pode ser captado com a
objectiva de uma máquina de filmar (p.258), porque a sua Paixão continua
evidente nos dias de hoje, uma vez que a Cruz não significa a ausência de Deus,
mas que Deus coloca-se ao nosso lado, num acto de plena solidariedade humana.
“A cruz não é uma demonstração de violência, de
sofrimento e de morte, mas pelo contrário, é uma mensagem de amor, de um amor
mais forte que a própria morte.” (p.254)
Por isso, e para
terminar, uma das mais belas formas de expressarmos a nossa fé, é o beijo
paradoxal que damos à Cruz de Cristo nesta celebração. Um beijo no qual revemos
as nossas próprias feridas e onde reconhecemos que a fé não expressa o medo da
morte mas antes o desejo da vida. Por tudo isso, deixo-vos a pergunta: seremos
capazes de abrir os olhos e de nos comprometermos com os beijos de compaixão a
dar em tantos rostos sofredores?
É um paradoxo:
apesar de apostarem na dúvida e incertezas da fé, os livros de Halík ajudaram-me
a dar dois ou três passos na direção do deserto. “A
Noite do Confessor” é um
livro provocador sobre “a fé cristã numa
era de incerteza”, que só deixará indiferente quem não tiver coragem de o
ler com honestidade. Lê-se com prazer este livro, com notas inesperadas de um
humor amadurecido. É fruto do percurso espiritual de quem não abdica da cultura
que criámos, da racionalidade, da individualidade e do corpo como “missão” a
construir, quando nos convoca à esperança. Uma reflexão de coração aberto, duma
inteligência excepcional, por um pastor dos que se embrenham profundamente no
cheiro e no viver das suas ovelhas.
REFERÊNCIAS
HALÍK, Tomás. A Noite do Confessor: A
fé cristã numa era de incerteza. Lisboa: Paulinas Portugal, 2014. 336 p. ISBN:
9896733635.


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