1.
INTRODUÇÃO
Ao pensar sobre os anjos, com muita facilidade
vem-nos à mente a clássica representação de um misterioso jovem de bela
aparência, trajando uma longa e alva túnica. Não podemos considerá-la uma
imagem errada, visto que nas próprias Escrituras eles são assim figurados, como
por exemplo, no episódio de Tobias.
Já em nossa época, as aparições de Fátima foram
precedidas de algumas intervenções angélicas. O Anjo da Paz apareceu três vezes
aos pastorinhos e foi assim descrito mais tarde pela Irmã Lúcia, uma das
videntes: “Começamos a ver (…) uma luz
mais branca que a neve, com a forma de um jovem transparente, mais brilhante
que um cristal atravessado pelos raios do sol. À medida que se aproximava,
íamos-lhe distinguindo as feições: um jovem dos seus 14 a 15 anos, de uma grande
beleza. Estávamos surpreendidos e meio absortos.” A descrição da Irmã Lúcia
pouco revela a respeito dos seres angélicos, apenas aumenta o mistério que os
cerca.
Mesmo na Sagrada Escritura, não há elementos
precisos sobre sua natureza e atributos; o que se conhece é deduzido de sua
atuação, nas missões a eles confiadas por Deus junto aos homens.
Quem são, afinal, os anjos? Que predicados possuem?
A resposta, nós a encontramos nos escritos de um dos autores que mais a fundo
tratou do assunto: São Tomás de Aquino, o Doutor Angélico. Com base em sua
doutrina, vejamos algumas das interessantes questões relativas aos anjos.
Ao criar, Deus teve em vista “a perfeição do Universo como finalidade principal”[1],
pois tinha intenção de espelhar o supremo Bem, ou seja, Ele mesmo. Por isso,
fez em maior número os seres mais elevados. E os espíritos celestes, os quais
superam em dom e qualidade qualquer ser corporal, foram criados em tal
quantidade que, perto deles, todas as estrelas do firmamento não passam de um
punhadinho de pedras preciosas.
Todos os homens – desde Adão até o último a nascer
no fim do mundo – são poucos em relação às miríades de puros espíritos que
espelham tão perfeitamente o Criador dos homens e dos anjos. É com grande
veracidade que Dionísio confessou humildemente: “Os exércitos bem-aventurados dos espíritos celestes são numerosos,
superando a medida pequena e restrita de nossos números materiais”[2]
Segundo o Doutor Angélico, as criaturas devem
representar a bondade de Deus. Mas nenhuma criatura – nem sequer Maria
Santíssima! – é capaz de representar suficientemente toda a bondade divina. Por
isso, Ele criou múltiplos e distintos seres. Assim, cada indivíduo representa
um aspecto diferente do Bem Supremo, e um suprirá aquilo que no outro não se
encontra.
Os seres criados – se postos em escala, de inferior
a superior – formam uma imensa cadeia, onde o conjunto de diversos graus, cada
qual mais requintado, dá uma noção mais completa e arquitetônica da Suma
Perfeição do que qualquer um deles individualmente[3].
Ademais, na medida em que as criaturas se aproximam
do Bem Supremo, as diferenças entre elas se multiplicam, para melhor espelhar a
riqueza infinita dos dons de Deus. Deste modo, a extrema variedade do mundo
angélico supera tanto a do mundo físico que este, comparativamente, parece
empalidecido, pobre e até monótono! Entre os anjos, não há indivíduos
semelhantes, agrupados em famílias ou raças, como ocorre no gênero humano.
Cada um difere do outro, como se fossem espécies
diversas.[4]
São Tomás de Aquino, baseando-se nas Escrituras, divide-os em três hierarquias
e nove coros: “Isaías fala dos Serafins;
Ezequiel, dos Querubins; Paulo, dos Tronos, das Dominações, das Virtudes, das
Potestades, dos Principados; Judas fala dos Arcanjos, enquanto o nome dos Anjos
está em muitos lugares da Escritura”[5].
Enquanto São Dionísio explica a divisão da
hierarquia angélica em função de suas perfeições espirituais, São Gregório o
faz de acordo com seus ministérios exteriores: “Os Anjos são aqueles que anunciam as coisas menos importantes; os
Arcanjos, os que anunciam as mais importantes; as Virtudes, por elas se
realizam os milagres; as Potestades, pelas quais se reprimem os maus poderes;
os Principados, que presidem os próprios espíritos bons”[6]
Os anjos podem influenciar profundamente os homens,
embora o façam sempre discretamente, pois a humildade também é uma virtude
angélica.
Quantas vezes, uma boa inspiração tem origem num
anjo! Ou quando o pressentimento de algum perigo grave leva a pessoa a tomar medidas
e escapar de um acidente ou livrar-se de um grande dano, certamente foi algum
solícito anjo que zelou pelo bem de seu protegido.
Mas os anjos exercem um importante papel, sobretudo
no que diz respeito à fé, como nos ensina o Doutor Angélico: “Dionísio prova que as revelações das coisas
divinas chegam aos homens mediante os anjos. Essas revelações são iluminações.
Portanto, os homens são iluminados pelos anjos”.[7]
“Pela
ordem da Divina Providência – continua São Tomás – os inferiores se submetem às
ações dos superiores. Assim como os anjos inferiores são iluminados pelos
superiores, assim os homens, inferiores aos anjos, são por eles iluminados. […]
Por outro lado, o intelecto humano, enquanto inferior, é fortalecido pela ação
do intelecto angélico”.[8]
O Doutor Angélico cita o comentário de São Jerônimo
às palavras do Divino Mestre: “seus anjos
[dos pequeninos] no Céu contemplam sempre a face de meu Pai” (Mt 18, 10). “Grande é a dignidade das almas – afirma São
Jerônimo -, pois, ao nascer, cada uma tem um anjo delegado à sua guarda”[9].
Assim, cada homem recebe um príncipe da corte celeste que nunca o abandona, por
mais culposas ou pavorosas que sejam as situações pelas quais passe. Tal como
se reza na conhecida oração ao anjo da guarda (Santo Anjo do Senhor) ele rege,
guarda, governa e ilumina o seu protegido.
O anjo ilumina o homem para incliná-lo ao bem ou
comunicar-lhe a vontade divina[10]
e o protege contra os assaltos do demônio. Sobretudo, o anjo continua sempre na
presença de Deus, mesmo estando ao lado de seu protegido, intercedendo
continuamente por ele.
2. OS ANJOS NOS ENSINAMENTOSDE
SÃO TOMÁS DE AQUINO
A análise a seguir,
feita pela autora, é apoiada nos ensinamentos de São Tomás de Aquino, do livro
Suma Teológica Ia, A Primeira Parte, Questões: 60-64, como apresentado no livro
Uma Excurção do Summa, escrito por
Monsenhor Paul J. Glenn e
traduzido para o
português pela Profª. Oliveira de
Danielize.
60.
O AMOR NOS ANJOS
1. O amor é uma inclinação natural da vontade sobre
seu objetivo. É a operação fundamental da vontade. Aonde há vontade há amor.
Sendo assim há amor nos anjos.
2. O amor no anjo não é somente uma tendência
natural, é uma tendência ciente da ordem intelectual e involve não somente
inclinação, mas escolha.
3. Cada ser ama a si mesmo tanto que procura seu
próprio bem. Criaturas livres amam a si mesmas dessa maneira e tendem, ou
desejam o que lhe sera de benefício próprio. E assim como criaturas livres
exercitam pela escolha de lutar por um objeto benéfico, diz-se que amam a si
mesmos por escolha. Anjos amam a si mesmos por ambas tendência natural e
escolha.
4. O amor natural de uma criatura pela outra é
baseado em um ponto de unidade ou igualdade do amante e amado. Já que os anjos
são todos de uma mesma natureza espiritual, eles naturalmente amam uns aos
outros. [Note que: Os anjos são genericamente um. Eles são do mesmo gene ou
classe essencial . Já vimos que eles são especificamente distintos, que cada
anjo é o único de seu específico tipo essencial.]
5. Pelo amor natural, os anjos amam a Deus mais do
que a si mesmos. Todas as criaturas pertencem absolutamente a Deus. Eles se
inclinam a Deus como seu destino final ou objetivo. As criaturas, que amam
livremente, devem reconhecer a Deus como seu final ou objetivo e buscá-lo acima
de tudo. O amor de Deus vem naturalmente (em criaturas livres) antes do amor a
si mesmo e é o amor maior. Se não fosse assim, o amor natural seria uma
contradição, porque não seria aperfeiçoado por atingir seu objetivo verdadeiro,
mas seria sem frutos e auto-destruidor.
61.
A CRIAÇÃO DOS ANJOS
1. Anjos são criaturas. Eles existem, não por
necessidade, mas a existência dada lhes dada. Ou seja, eles tem existência por
participação. Agora, o que tem existência por participação recebe esta
existência daquele que tem a existência como sua própria essência. Somente Deus
existe por sua própria essência. Sendo assim, anjos tem sua existência de Deus;
eles são criados.
2. Deus sozinho existe desde a eternidade. Eles cria
coisas produzindo-as a partir do nada. Criaturas existem depois de nunca
haverem existido. Então anjos não existem desde a eternidade.
3. O mais provável é que os anjos e o mundo tenham
sido criados ao mesmo tempo, e não anjos primeiro (como um tipo de mundo
independente dos espíritos) e mundo depois. Anjos são parte do universo, e
nenhuma parte é perfeita se totalmente separada do todo, da totalidade a qual
pretence.
4. Os anjos são criados no céu. E é cabível que
criaturas da mais perfeita natureza devam ser criadas no lugar mais nobre.
62.
GRAÇA E GLÓRIA DOS ANJOS
1. Apesar dos anjos serem criados no céu, e com
felicidade ou beatitude naturais, eles não foram criados na glória, ou seja, com
posse da visão beatificada.
2. Para ter a Deus na visão beatificada os anjos
requerem graça.
3. E, enquanto os anjos foram criados em estado de
graça santificadora, esta não era a graça a qual confirma os anjos na glória.
Se os anjos tivessem sido criados na graça confirmadora, nenhum poderia ter
caído, e alguns caíram.
4. Anjos foram criados na graça e usando essa graça
em seu primeiro ato de caridade (que é a amizade e amor a Deus) eles mereceram
a visão beatificada e a beatitude celeste.
5. Logo que mereceram a beatitude celeste, os anjos
a possuíram. A natureza angelical, sendo puramente espiritual, não se adequa a
passos e degraus progressivos para a perfeição, como no caso de um homem.
6. Os anjos mais altos, aqueles de natureza mais
perfeita e inteligência mais aguçada, tem dons maiores de graça que outros
anjos; pois seus poderes mais perfeitos os torna mais poderosos e efetivos a
Deus do que no caso dos anjos de menos capacidade.
7. A beatitude celeste desfrutada pelos anjos não
destrói sua natureza ou suas operações naturais; então o conhecimento natural e
amor dos anjos permanence neles depois que eles são beatificados.
8. Anjos beatificados não podem pecar. Sua natureza
encontra preenchimento perfeito na visão de Deus; estão dispostos em direção a
Deus exclusivamente. Em anjos beatificados não existe tendência possível do
distanciamento de Deus, sendo assim não há pecado possível.
9. Anjos que tem a Deus na visão beatificada não são
aumentados ou avançados em beatitude. Uma capacidade que é perfeitamente preenchida
não pode ser ainda mais preenchida.
63.
PECADO DOS ANJOS CAÍDOS
1. Uma criatura racional (ou seja, uma criatura com
intelecto e vontade) pode pecar. Se incapaz de pecar, este é um dom da graça,
não uma condição da natureza. Enquanto os anjos não eram ainda beatificados
poderiam pecar. E alguns pecaram com frequencia.
2. Os anjos pecadores (ou demônios) são culpados de
todos os pecados até que levem o homem a cometer todo tipo de pecado. Mas nos
anjos maus não poderia haver tendência a pecados carnais, mas só aqueles
pecados que poderiam ser cometidos por seres puramente espirituais. Estes
pecados são somente dois: orgulho e inveja.
3.Lúcifer que se tornou Satan, líder dos anjos
caídos, desejou ser como Deus. Este desejo orgulhoso não era a vontade de ser
igual a Deus, pois Satan sabia por seu conhecimento natural que igualdade entre
criatura e criador é absolutamente impossível. Além do que nenhuma criatura
deseja se auto-destruir, até mesmo para tornar-se algo maior. Nesse ponto o
homem algumas vezes engana a si mesmo com um truque de imaginação; ele se
imagina outro e maior ser, e ainda é ele que é, de alguma maneira, esse outro
ser. Mas um anjo não tem a faculdade da imaginação para abusar dessa maneira. O
intelecto angelical, com seu conhecimento claro, torna esse truque de enganar a
si mesmo impossível. Lúcifer sabia que para ser igual a Deus, ele teria que ser
Deus, e ele sabia perfeitamente que isso não poderia acontecer. O que ele
queria era ser como Deus; ele gostaria de ser como Deus de uma maneira não
cabível a sua natureza, tais como criar coisas com seu próprio poder, ou
alcançar total beatitude sem a ajuda de Deus, ou ter o comando sobre outros de
maneira própria somente a Deus.
4. Toda natureza, isto é, cada essência em operação
tende ao bem. Uma natureza intelectual tende ao bem em geral, o bem sob seus
aspectos comuns, o bem como tal. Portanto os anjos caídos não são naturalmente
maus.
5. O diabo não pecou no exato momento de sua
criação. Quando uma causa perfeita faz uma natureza, a primeira operação
daquela natureza deve estar em linha com a perfeição de sua causa. Portanto o
demônio não foi criado na maldade. Ele, como todos os anjos, foi criado no
estado de graça santificadora.
6. Mas o demônio, com seus companheiros, pecou imediatamente
depois de sua criação. Ele rejeitou a graça na qual ele foi criado e a qual era
designado a usar, como os anjos bons a usavam para merecer a beatitude. Se, no
entanto, os anjos não foram criados na graça, mas tiveram a graça disponível
logo depois de serem criados, então pode ter ocorrido um intervalo entre a
criação e o pecado de Lúcifer e seus companheiros.
7. Lúcifer, chefe dos anjos pecadores, era
provavelmente o mais alto de todos os anjos. Mas há quem pense que Lúcifer era
o maior somente entre os anjos rebeldes.
8. O pecado do mais alto dos anjos foi um mau
exemplo o qual atraiu os outros anjos rebeldes e foi, a esta extensão, a causa
de seus pecados.
9. Os anjos fiéis são uma multidão maior que os
anjos caídos. Pois pecado é contrário a ordem natural. Sendo que, o que opõe a
ordem natural ocorre com menos frequencia, ou em menos exemplos, do que o que
está de acordo com a ordem natural.
64.
O ESTADO DOS ANJOS CAÍDOS
1. Os anjos caídos não perderam seu conhecimento
natural pelo seu pecado; nem perderam seu intelecto angelical.
2. Os anjos caídos são obstinados no mal, não se
arrependem, são inflexíveis em seu pecado. Isso segue de sua natureza como
espíritos puros, pois a escolha de um espírito puro é necessariamente final e
imutável.
3.Ainda, devemos dizer que há tristeza nos anjos
caídos, embora não seja a tristeza do arrependimento. Eles tem tristeza na
aflição de saber que não podem atingir a beatitude; que há barreiras sobre sua
vontade má; que os homens, apesar de seus esforços contrários, podem chegar oa
céu.
4. Os anjos caídos estão engajados em combater o
homem contra sua salvação e em torturar almas perdidas no inferno. Os anjos
caídos que rodeiam os homens na terra, carregam consigo sua própria escuridão e
atmosfera de punição. E onde quer que estejam suportam as dores do inferno.
REFERÊNCIAS
AQUINO, Tomás
de; FAITANIN, Paulo. Sobre os Anjos.
Tradução de Luiz ASTORGA. Rio de Janeiro: Sétimo Selo, 2006. 229 p., Brochura,
12x20. Tradução de De Substantiis Separatis. ISBN 85-99255-05-3.
AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. 2.
ed. São Paulo: Loyola, 2001. 9 v. (Volume II). Parte I (60-64q).
ARAUTOS DO EVANGELHO:
Os anjos como são?. São
Paulo: Arautos do Evangelho, n. 69, 10 set. 2007. Mensal. Disponível em:
<http://www.arautos.org/secoes/artigos/doutrina/anjos/os-anjos-como-sao-140807#topo>.
Acesso em: 4 set. 2017
GLENN, Monsenhor
Paul J. Anjos: dos Ensinamentos de São Tomás de Aquino. 2012.
Tradução: Oliveira de Danielize. Disponível em: <http://jesus-passion.com/os_anjos.htm>.
Acesso em: 4 set. 2017.

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