sábado, 15 de setembro de 2018

COMENTÁRIOS À LUZ JUDAICA SOBRE O CULTO CRISTÃO NOS PRIMEIROS SÉCULOS




I. ELEMENTOS OU COMPONENTES ESSENCIAIS NA LITURGIA CRISTÃ

            Deus se comunica com a gente através de sinais sensíveis. Ora, é na celebração da divina Liturgia que temos um dos lugares mais excelentes em que Deus, no Cristo e pelo Espírito Santo, comunica ao seu povo o dom de sua presença salvadora. Por isso, a Liturgia é feita de sinais sensíveis. Toda ela, em todos os seus detalhes, tem (e deve ter!) sua indispensável dimensão simbólico-sacramental. A começar pelo lugar físico em que acontece a celebração litúrgica. São quatro são os elementos fundamentais que não devem faltar na organização do espaço litúrgico, pelos quais nos é dado perceber a presença amorosa de Deus na celebração da divina Liturgia.

A) O ALTAR: SÍMBOLO DE CRISTO
O centro de nossa fé cristã é o sacrifício de Cristo, sua total entrega por nós, confirmada pela Ressurreição e pelo dom do Espírito. Ora, esta entrega se faz hoje presente precisamente sobre o altar de nossas igrejas, toda vez que celebramos o memorial da Páscoa, na santa Missa! E mais, como explicita a Instrução Geral do Missal Romano – IGMR: Ele “é também a mesa do Senhor na qual o povo de Deus é convidado a participar por meio da Missa; é ainda o centro da ação de graças que se realiza pela Eucaristia” (nº 296).
Assim sendo, o ponto de convergência e atenção, dentro do espaço celebrativo, tem de ser necessariamente o altar. E nada tem o direito de “roubar-lhe a cena”. Pois ele re-presenta (traz-nos presente à memória) o que é mais sagrado para nós: Cristo em sua entrega total por nós, ontem, hoje e sempre.

B) A MESA DA PALAVRA
Antes de celebrarmos o memorial do Sacrifício redentor de Cristo, Deus nos fala e nos comunica o seu amor quando são feitas as leituras, inclusive quando se canta o Salmo responsorial. Como explicitamente diz a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Vaticano II: Cristo está presente “pela sua palavra, pois é Ele mesmo que fala quando se leem as Sagradas Escrituras na igreja” (SC 7).
Assim sendo, “a dignidade da palavra de Deus requer na igreja um lugar condigno de onde possa ser anunciada e para onde se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra” (IGMR, nº 309). Trata-se da mesa da Palavra, ou ambão. É espaço litúrgico de fundamental importância simbólico-sacramental, pois evoca a presença viva do Senhor falando para o seu povo.

C) O ESPAÇO DA ASSEMBLEIA
Outro elemento fundamental de um espaço litúrgico: o lugar da assembleia. Por quê? É que a assembleia litúrgica não é uma simples congregação de pessoas, como qualquer outra. Uma vez constituída, mais que um mero ajuntamento de pessoas, ela é uma comunhão de cristãos e cristãs, dispostos a ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia. É o próprio corpo de Cristo, cujos membros somos cada um de nós. E isto significa que, como tal, deve tratar-se de uma assembleia altamente participativa (SC 14).
Assim sendo, também o espaço da assembleia deve aparecer como um espaço do Cristo enquanto corpo feito de muitos membros. E que todos os fiéis reunidos possam senti-lo como tal, tanto pela disposição arquitetônica geral do espaço, como pela disposição dos bancos ou cadeiras, em que todos os membros da assembleia possam sentir-se realmente como corpo bem unido, na escuta atenta da Palavra e na participação digna da Liturgia eucarística.

D) A CADEIRA DA PRESIDÊNCIA
Na verdade, quem preside a Liturgia é o Cristo, na pessoa do presidente da assembleia litúrgica. O sacerdote que preside a Eucaristia é o sinal sacramental da presença invisível deste Cristo. Ao presidir a celebração, ao elevar a oração a Deus em nome de todos, ao explicar a palavra de Deus à comunidade, o sacerdote atua em nome deste Cristo. Por isso ele preside, ou seja, ele se senta diante de toda a assembleia, como representante do verdadeiro Presidente e Mestre, que é o Senhor Jesus.
Assim sendo, para visualizar o mistério da presidência de Cristo na pessoa do ministro (cf. SC 14), a Igreja recomenda que se coloque em destaque a cadeira de quem preside. Como vemos na IGMR: “A cadeira do sacerdote celebrante deve manifestar a sua função de presidir a assembleia e dirigir a oração” (nº 310). Em outras palavras, como já dissemos, a cadeira presidencial em destaque evoca a presença invisível do Cristo que preside a Liturgia na pessoa do ministro.


II. ESTRUTURA DA LITURGIA JUDAICA: UMA BREVE ANÁLISE DA BERAKHAH

            Berakah – Traduzida como benção, louvor, agradecimento, admiração. É um dos termos que condensa toda riqueza e originalidade do pensamento hebraico. A Berakah define a tríplice aliança: com Deus, com o mundo e com os seus semelhantes. Em relação ao homem e ao mundo, Deus é a fonte, é a norma: cria o homem e o mundo e estabelece sua modalidade de usufruto e de multiplicação.
Em relação a Deus e ao mundo o homem é o interprete e beneficiário: é objeto da atuação divina e destinatário dos bens da terra. Em relação a Deus e ao homem, o mundo é sacramento e dom: sinal da benevolência divina e dom concreto para o homem.
Com a oração de benção, o israelita reconhece estes três pólos e a qualidade de suas relações. Reconhece a Deus como origem e proprietário das coisas, o mundo como dom que deve ser aceito e partilhado, o homem com os irmãos com as quais participam do único banquete da vida. Deste modo a Berakah capta a verdadeira finalidade do mundo e se põe como condição para a realização do reino. Tudo é razão para bendizer ! Por isso, de acordo com a tradição judaica precisa-se recitar uma benção diante de qualquer coisa.
Entre todas as bênçãos que devem ser elevadas a Deus tem uma particular importância as que estão ligadas aos frutos da terra. Antes de alimentar-se com o pão da terra, o judeu reza: “Bendito sejas, Senhor nosso Deus Rei do universo, que produzes o pão da terra.” Não existe algo que não seja ocasião de uma Berakah. Até as realidades negativas, como a injustiça, a doença, em vez de levar ao desespero são motivos para benção e louvor. A Berakah é a expressão de uma nova luz. Ela é a maior das atividades porque tem o poder de fazer novas todas as coisas.
 A Berakah e a Torá: o judeu, além de bendizer o Senhor pelos frutos da terra o faz também pela Torá. Sede bendito, Senhor nosso, Rei do universo que nos deu a Torá da verdade e que plantou em nosso meio a vida eterna. Bendize-se a Torá porque ela do mesmo modo que os frutos da terra, alimenta e alegra o coração do homem. A Torá revela a finalidade dos bens da terra mediadores e dom da benevolência divina. O judeu é chamado a bendizer o Senhor diante das situações dolorosas e trágicas, não porque tem prazer no sofrimento mas porque tem a inabalável esperança messiânica

A Berakah e o Milagre: a Berakah é o reflexo desta luz secreta das coisas. Onde ela está presente cria-se o milagre, onde ela está ausente se estende a opacidade. Para quem pratica a Berakah tudo é maná, é milagre
A Berakah e o Temor: o temor é o reconhecimento de que as coisas não são somente aquilo que são mas implicam também, embora de longe algo de absoluto. O temor é a percepção da transcendência, do fato de que tudo em todo lugar faz referência Aquele que está além das coisas. A Berakah nasce do temor e produz o temor porque une as coisas ao amor de Deus colocando-as sob seu olhar criador e providente. Graças a Berakah o universo se torna um imenso santuário em que se deve penetrar e atravessar com veneração e em estado contemplativo.
A Berakah e o Dom: a benção restitui a criatura à sua situação de dom enquanto sua ausência rebaixa as coisas à sombria consistência de instrumento e de mercadoria. Jesus, dom supremo do amor de Deus ao homem além de revelar a realidade com o dom resume-a em sua pessoa e no seu mistério.
A Berakah e a Alegria: a oração de Benção , além de expressar a percepção real com o dom que deve ser assim participado, traduz também sentimentos de alegria e bem estar. Ser capaz de bendizer a Deus, antes de ser um gesto de agradecimento, demonstra um sentido de plenitude. A Berakah é um sinal de um coração pacífico e cheio de sentido. A alegria que a Berakah traz é dupla: alegria de saber que é objeto da benevolência de Deus e a percepção do mundo cheio de unidade e harmonia.
A Berakah e a Petição: além da Berakah, a liturgia judaica se estrutura envolta de um segundo pólo, que é a invocação ou petição. O judeu, a orar, não louva a Deus somente pelas suas maravilhas e por seus dons, mas também lhe suplica por suas necessidades . Louvar e invocar, admirar e pedir, agradecer e suplicar são dois pólos da prece hebraica, tanto da individual como da comunitária.
A prece de petição dá forças ao “pobre” no calvário. Conserva-lhe a fé em Deus e não os deixa sucumbir em face as decepções; dá-lhe certeza do triunfo final da bondade divina e não o deixa desesperar diante das derrotas.
Mas esta força que a oração de petição dá termina sempre com um louvor. Se um “pobre” invoca a ajuda de Deus é para poder “louva-lo e agradecer-lhe melhor”. A finalidade profunda de toda petição (seja cura individual ou a libertação de Jerusalém) é de poder cumprir a vocação de louvar e agradecer.


III. A FÓRMULA DA BERAKHAH

A respeito das diversas formas de benção, tem-se uma classificação de três categorias, cada uma com uma estrutura própria: bênçãos motivadas por objetos (“bens” concretos), bênçãos motivadas pela alegria de observar a Torá e bênçãos sem motivações particulares.

1. Bênçãos motivadas por bens concretos: São as bênçãos mais simples que se inicia com a fórmula – “Sê bendito, Senhor nosso Deus, Rei do universo” e termina com a menção da coisa ou da experiência que a motivou. Ex.: No caso da benção antes das refeições: que tiras o pão da terra; ou antes de beber um copo de vinho: que nos dá alegria com o fruto da videira.

2. Bênçãos motivadas pela alegria da Torá: São as bênçãos que são citadas antes de cumpri um mandamento e que se iniciam com fórmulas como esta: “Sê bendito, Senhor nosso Deus, que nos santificaste com os teus mandamentos.” Ex.: acender as luzes do Sábado.

3. Bênçãos sem motivações específicas e que exprimem petição ou louvor: são as bênçãos mais comuns da liturgia pública ou particular e diferem das precedentes pelo conteúdo e pela forma. Quanto à forma, elas iniciam e terminam com a mesma expressão: Sê bendito, Senhor. Quanto ao conteúdo, trata-se de afirmações diversas, que se encontram entre as duas bênçãos de abertura e de encerramento.


IV. A ESTRUTURA DA LITURGIA JUDAICA POSSUI TRÊS UNIDADES

1ª)  O SHEMÁ ISRAEL

O Shemá contém a essência da fé judaica. Consiste de três capítulos tirados da Bíblia.

O primeiro capítulo: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração. Tu os inculcarás a teus filhos, e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja andando pelo teu caminho ao te deitares e ao te levantares.
Atá-los-ás à tua mão como sinal, e os levarás como uma faixa frontal diante dos teus olhos. Tu os escreverás nos umbrais e nas portas de tua casa.” ( Deut. 6,4-9 ). Nessa parte falasse do uso da Tefillim e do Mezuzá .

2ª) TEFILLIM (FILATÉRIOS)

 A Torá descreve-o como um sinal, uma afirmação pública de envolvimento judaico. Ao colocar Tefillim o indivíduo dá expressão aos seus sentimentos básicos de identificação judaica e a sua importância para ele. Os Tefillim são colocados no braço, frente ao coração e sobre a cabeça. Isto significa a união do emocional e do intelectual à serviço de Deus. Homens ( maiores de 13 anos ) devem colocar Tefillim todos os dias da semana, exceto Shabbat e Festas Judaicas.

3ª) MEZUZÁ

A santidade do lar judaico é simbolizada pela Mezuzá, pequeno rolo de pergaminho, que contém os dois primeiros parágrafos do “Shemá Israel”. Enrolado o pergaminho, é ele colocado num estojo de madeira, metal ou cristal, que tem uma pequena abertura, através da qual se distingue a palavra Shaddai ( Todo Poderoso ) escrita nas costas do rolo. Fixa-se a Mezuzá no lado direito dos portais de todas as habitações em que vivem judeus, conforme as palavras bíblicas: “E as escreverás nos portais de tua casa e nos teus portões”. A Mezuzá distingue a casa judaica, fazendo lembrar aos moradores e visitantes, logo na entrada, quem é o criador de tudo o que somos e possuímos. Ela recorda o mandamento de se observar a Torá tanto em casa como fora dela.
O segundo capítulo: “Se obedecerdes aos mandamentos que hoje vos prescrevo, se amardes o Senhor, servindo-o de todo o vosso coração e de toda a vossa alma, derramarei sobre a vossa terra a chuva em seu tempo, a chuva do outono e da primavera, e recolherás o teu trigo, o teu vinho e o teu óleo; darei erva aos teus campos para os teus animais, e te alimentarás até ficares saciado. Tende cuidado para que o vosso coração não seja seduzido e vos desvieis do Senhor para servir deuses estranhos, rendendo-lhes culto e prostrando-vos diante deles.

A cólera do Senhor se inflamaria contra vós e ele fecharia os céus: a chuva cessaria de cair, e não haveria mais colheita no vosso solo, de modo que não tardaríeis a perecer nesta boa terra que o Senhor vos dá. Gravai, pois, profundamente em vosso coração e em vossa alma estas minhas palavras; prendei-as às vossas mãos como um sinal, e levai-as como uma faixa frontal entre os vossos olhos.
Ensinai-as aos vossos filhos, falando-lhes delas seja em vossa casa, seja em viagem, quando vos deitares ou levantardes. Escreve-as nas ombreiras e nas portas de tua casa, para que se multipliquem os teus dias e os dias de teus filhos na terra que o Senhor jurou dar a teus pais, e sejam tão numerosos como os dias do céus sobre a terra.” (Deut. 11,13-21) Nesse trecho os Tefillim e Mezuzá são novamente mencionados como os símbolos da observância prática dos preceitos divinos.
O terceiro capítulo: “O Senhor disse a Moisés: ‘Dizei aos israelitas que façam para eles e seus descendentes borlas nas extremidades de suas vestes, pondo na borla da cada canto um cordão de púrpura violeta. Fareis essas borlas para que, vendo-as vos recordeis de todos os mandamentos do Senhor, e os pratiqueis, e não vos deixeis levar pelos apetites de vosso coração e de vossos olhos que vos arrastam à infidelidade. Desse modo, vós vos lembrareis de todos os meus mandamentos, e os praticareis, e sereis consagrados ao vosso Deus. Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei do Egito para ser o vosso Deus. Eu sou o Senhor vosso Deus’ ” (Num. 15,37-41 ). Esse trecho faz referência ao Tallit .

4ª) TALLIT

É uma peça de vestimenta em forma de escapulário distintamente judaica que é um constante lembrete de todas as leis da Torá. É composta de quatro fios duplos de lã, linho ou seda, as sisit, que pendem dos quatro cantos do manto de preces. Mas, como as roupas atuais são bem diferentes das de outrora, e como nós não mais vestimos mantos quadrados, amarramos as sisit ao chale branco que os homens vestem para as orações e a uma peça menor de fazenda, pequeno Tallit . O Tallit ( como também o tefillim ) obedece a uma lógica teológico-pedagógica: como sinal e instrumento de santidade; mais do que simplesmente recordar o que o Senhor quer, faz viver em santidade à qual o Senhor chama.

O judeu religioso deve proclamar o Shemá duas vezes ao dia: “Quando te deitas e quando te levantas” e essa proclamação é acompanhada das bênçãos, respectivamente, da manhã (duas Berakah antes e uma depois ) e da tarde ( uma Berakah antes e duas depois ).

5ª)  A TEFILLAH

A tefillah é, depois do Shemá, o segundo momento central da prece hebraica. Compõe-se de uma série de bênçãos breves ou orações feitas três vezes ao dia: de manhã, ao meio-dia e à tarde, e é a “oração por excelência ” da liturgia hebraica. Intimamente ligada ao Shemá, de acordo com a tradição rabínica, ela é recitada logo depois da benção final do Shemá.
A tefillah é composta de 19 bênçãos (antigamente 18) subdividida em três grupos ou seções:

1. As três primeiras bênçãos
São uma introdução e se concentram no tema do louvor a Deus, glorificando-o por seus atributos principais: amor ( hesed ), força ( gevurah ) e santidade ( qedushah ).

2. As últimas três bênçãos
É definida como benção de agradecimento, apesar de conter uma súplica de restauração do templo de Jerusalém e do dom da paz.

3. As treze bênçãos intermediárias
São o coração da tefillah e constituem uma série de pedidos a Deus, a fim de que Ele conceda a seu povo tudo o que é necessário para a vida. São a “Carta Magna” do judaísmo, através da qual conhecemos o que ele tem como verdadeiramente importante, que pode-se dividir em : bens espirituais – a inteligência, a penitência e o perdão; bens materiais – a liberdade pessoal a saúde, o bem-estar, a unificação dos dispersos; bens sociais – a justiça integral, o castigo dos inimigos, a recompensa dos justos, a Nova Jerusalém, o Messias e o atendimento das preces.



3ª) . A QERI’AT TORÁ (A “LEITURA DA TORÁ”)

A Torá (Lei, ensinamento) é composta do Pentateuco: Gênesis, Êxodo, Números, Levítico e Deuteronômio.
A Tanah é um livro utilizado pelos judeus que é composto pela Torá e os livros do Antigo Testamento. Os judeus não reconhecem os seguintes livros como inspirados: Judite, Tobias, Macabeus I e II, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc.
Além do Shemá Israel e da tefillah, outro núcleo da liturgia hebraica é a qeri’at Torá feita na sinagoga às segundas-feiras, nas terças e aos sábados, nos dias festivos e semifetivos. Entre os vários imperativos do Shemá há um particularmente importante: “Tu os inculcarás a teus filhos, e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja andando pelo teu caminho ao te deitares e ao te levantares”. Se o mandamento bíblico quer inculcar o amor à Palavra de Deus em todas as gerações, a qeri’at Torá, feita na sinagoga em determinados dias e de acordo com modalidades particulares, responde a este mandamento: com ela, o povo de Israel nutre-se da Palavra de Deus, lendo-a e comentando-a.
Não se pode compreender o judaísmo sem a Torá, que é sua alma e substância, seu segredo e seu fascínio. A sua importância central na tradição hebraica é expressa mais pela linguagem figurada do que pela argumentação racional. Devido a sua importância, a Torá é lida e comentada na sinagoga três vezes por semana.


V. COMENTÁRIO SOBRE UMA ÉPOCA LITÚRGICA:  O MISTÉRIO CELEBRADO NOS PRIMEIROS SÉCULOS DA NOSSA ERA.

É importante termos presente que para compreendermos LITURGIA devemos, antes de tudo, fazer uma análise do que aconteceu nos primeiros séculos da Igreja, isto é, como a LITURGIA era celebrada pelos primeiros cristãos, para que ao chegarmos na nossa era, compreendamos, à luz do Vaticano II, o significado deste mistério celebrado, que por sua vez significa experimentar a presença de Deus na nossa vida. 
É a ação de Deus na qual Ele entra em comunhão com o mundo e com os homens. De um lado Deus se revela e se comunica ao homem, e de outro, o homem entra em comunhão com Deus. Deus é mistério em si mesmo porque é comunhão de vida, de amor e felicidade em si mesmo. Para a Sagrada Escritura, os Padres da Igreja e a Liturgia, mistério é o plano de Deus de fazer o ser humano participante de sua vida, de salvar a humanidade. Além disso, é visto sob o aspecto divino da salvação. Neste caso, o mistério de Deus é revelado em seu Filho Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, isto é, que se fez humano para a nossa salvação. Ao se revelar em Jesus Cristo, Ele comunicou a sua vida eterna mais íntima ao ser humano. Para compreendermos o mistério é necessário termos fé, pois este brota da nossa espiritualidade. Depois deste ensaio, vamos estudar a liturgia nas suas origens.


V.I. A LITURGIA NOS PRIMÓRDIOS DO CRISTIANISMO

             Na era apostólica, mais conhecida como tempo dos apóstolos, Jesus e seus seguidores praticavam a religião judaica. Participavam das celebrações litúrgicas (templo, sinagoga, oração e festas). Jesus era um homem muito piedoso, assim como seus seguidores (apóstolos) e participavam assiduamente da religião de seu povo.
            Jesus e os apóstolos não vieram romper com a liturgia antiga, pelo contrário, vieram dar pleno cumprimento (Mt 5,17), aperfeiçoá-la. Assim sendo, deu uma nova orientação aos ritos judaicos já existentes. Portanto, a nossa liturgia cristã é uma continuidade da liturgia hebraica. O nosso referencial é Jesus de Nazaré. A partir do mistério de Cristo, aconteceu uma cristianização dos elementos ritualizados herdados, surgindo daí a liturgia cristã. Os elementos rituais são:



São elementos rituais riquíssimos que demonstram como a nossa liturgia está enraizada na cultura do Antigo Testamento. Em contrapartida, há aspectos de rupturas entre a liturgia cristã e a liturgia judaica. Em alguns aspectos, Jesus mantém uma crítica em relação à ordem cultual da religião judaica. Jesus quer resgatar o fundamento do culto, a saber, o amor que se desdobra na prática da justiça, da misericórdia, do perdão (cf. Mt 9,13). Também os discípulos de Jesus, após a ascensão, continuavam participando do templo, porém, não participavam dos sacrifícios rituais. Como judeus cristianizados, eram convictos de que a morte-ressurreição de Jesus havia superado o sacrifício da lei antiga. O templo passou a ser o verdadeiro Templo que agora é Cristo. A partir de então, a Igreja apostólica começou a organizar-se criando formas próprias de culto. Uma das características desse novo grupo era a reunião (aspecto comunitário): É a liturgia dos primeiros cristãos (cf. Mt 18,20, At 4,31; 20,7-8).
            Em At 2, 46 narra-se o momento da refeição, onde partiam o pão e comiam com simplicidade e alegria. Junto da reunião tinha o momento da oração da benção (oração eucarística: ação de graças) e o ensinamento dos apóstolos.
            Outro aspecto interessante é que costumavam realizar as reuniões no primeiro dia da semana. A este dia, deram o nome de “dia do Senhor” (domingo), por ser o dia em que se recorda a ressurreição do Senhor. Mais tarde surgiu a festa anual da Páscoa, quando Paulo dizia: “Cristo nossa Páscoa foi imolado” (1 Cor 5,7). A imolação do Cristo substituiu a do cordeiro da Páscoa anual hebraico.  Mais tarde surge também o batismo que já havia sido prefigurado por João Batista (batismo no Espírito no nome de Jesus).
            Embora não tendo uma regulamentação estável da liturgia, a comunidade apostólica já dispunha de algumas formas litúrgicas próprias: oração, batismo e eucaristia.



REFERÊNCIAS

Israel em Oração – Carmine Di Sante, Edições Paulinas, 1989.
– Apostila “Introdução à Língua Hebraica e à Cultura Judaica” – Jane Bichmacher de Glasman, 1987.

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