RATZINGER, J. /
BENTO XVI. Jesus de Nazaré: Da
entrada em Jerusalém até a Ressurreição. São Paulo: Planeta, 2011. Cap 4. 313p.
ISBN: 9788576656180.
SÍNTESE DO QUARTO CAPÍTULO
O problema da datação da Última Ceia de Jesus
assenta no contraste, a este respeito, entre os Evangelhos sinópticos, de um
lado, e o Evangelho de João, do outro. Marcos, que Mateus e Lucas seguem no
essencial, oferece a este propósito uma datação precisa. «No primeiro dia dos
Ázimos, quando se imolava a Páscoa, os discípulos perguntaram-Lhe: “Onde queres que façamos os preparativos
para comeres a Páscoa?” [...] Chegada a noite, Jesus foi com os Doze» (Mc
14, 12.17). A tarde do primeiro dia dos Ázimos, quando no templo se imolavam os
cordeiros pascais, é a vigília da Páscoa. Segundo a cronologia dos sinópticos
trata-se de uma quinta-feira.
Depois do ocaso, começava a Páscoa, e foi então
consumida a ceia pascal por Jesus com os seus discípulos, bem como por todos os
peregrinos idos a Jerusalém. Na noite de quinta para sexta-feira – sempre segundo
a cronologia sinóptica – Jesus foi preso e apresentado ao tribunal, na manhã de
sexta-feira foi condenado à morte por Pila- tos e sucessivamente, «pela hora
tércia» (cerca das nove da manhã), foi crucificado. A morte de Jesus deu-se à
hora nona (cerca das três horas da tarde). «Ao cair da tarde, visto ser a
Preparação, isto é, véspera do sábado, José de Arimateia [...] foi
corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus» (Mc 15, 42-43). A
sepultura devia fazer-se ainda antes do ocaso porque depois começava o sábado.
O sábado é o dia do repouso sepulcral de Jesus. A ressurreição tem lugar na
manhã do «primeiro dia da semana», no domingo.
Esta cronologia vê-se comprometida pelo seguinte
problema: o processo e a crucifixão de Jesus teriam acontecido na festa da
Páscoa, que naquele ano calhava na sexta-feira. É verdade que muitos estudiosos
procuraram demonstrar que o processo e a crucifixão eram compatíveis com as
prescrições da Páscoa. Mas, não obstante toda a erudição, resta problemático
que, naquela festa muito importante para os judeus, fossem admissíveis e
possíveis o processo diante de Pilatos e a crucifixão. Aliás, esta hipótese
vê-se obstaculizada também por uma informação fornecida por Marcos. Afirma ele
que, dois dias antes da festa dos Ázimos, os sumos sacerdotes e os escribas
procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à má-fé para O matarem, mas a propósito
declaravam: «Durante a festa não, para que o povo não se revolte» (14, 2; cf.
v. 1). Segundo a cronologia sinóptica, porém, a execução capital de Jesus terá
de facto tido lugar precisamente no dia da festa.
Vejamos agora a cronologia joanina. João tem o
cuidado de não apresentar a Última Ceia como ceia pascal. Pelo contrário, as
autoridades judaicas, que levam Jesus ao tribunal de Pilatos, evitam entrar no
pretório «para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa» (18, 28). A
Páscoa começa apenas ao entardecer; durante o processo, ainda se está a pensar
na ceia pascal; processo e crucifixão têm lugar no dia antes da Páscoa, na
parasceve, a «preparação», e não na própria festa. Naquele ano, portanto, a
Páscoa estende-se do ocaso de sexta-feira até ao ocaso de sábado, e não do
entardecer de quinta-feira até ao entardecer de sexta-feira.
Quanto ao resto, o desenrolar dos acontecimentos
permanece o mesmo. Na tarde de quinta-feira, a Última Ceia de Jesus com os
discípulos, que não é porém uma ceia pascal; na sexta-feira, a vigília da
festa, e não a própria festa, o processo e a execução capital; no sábado, o
repouso no sepulcro; no domingo, a ressurreição. Com esta cronologia, Jesus
morre na hora em que são imolados no templo os cordeiros pascais. Morre como o
verdadeiro Cordeiro, que estava apenas preanunciado nos cordeiros.
Esta coincidência, teologicamente importante, de
Jesus morrer contemporaneamente com a imolação dos cordeiros pascais tem levado
muitos estudiosos a desmerecerem a versão joanina como cronologia teológica.
João teria mudado a cronologia para construir esta coincidência teológica, que
todavia no Evangelho não é explicitamente afirmada. Mas, hoje, vai-se vendo de
maneira cada vez mais clara que a cronologia joanina é historicamente mais provável
do que a sinóptica, visto que – como se disse – processo e execução capital no
dia da festa parecem pouco concebíveis. Por outro lado, a Última Ceia de Jesus
aparece tão estreitamente ligada à tradição da Páscoa que a negação do seu
carácter pascal redunda problemática.
Por isso desde há muito que se fazem tentativas para
conciliar as duas cronologias. A mais importante e, em vários dos seus
pormenores, fascinante de chegar a uma compatibilidade entre as duas tradições
provém da estudiosa francesa Annie Jaubert, que desde 1953 tem vindo a
desenvolver a sua tese numa série de publicações. Dado que aqui não devemos
entrar nos detalhes da sua proposta, limitamo-nos ao essencial.
A Sra.Jaubert baseia-se principalmente em dois
textos antigos que parecem apontar para uma solução do problema. O primeiro é a
indicação de um calendário sacerdotal antigo, presente no Livro dos Jubileus,
que foi redigido em língua hebraica na segunda metade do século II antes de
Cristo. Este calendário não toma em consideração a translação da Lua, prevendo
um ano de 364 dias, dividido em quatro estações de três meses, dois dos quais
têm 30 dias e o outro 31. Cada trimestre, sempre com 91 dias, contém exactamente
13 semanas, e cada ano 52 semanas. Consequentemente, as festas litúrgicas de
cada ano seriam sempre no mesmo dia da semana. Isto significa que, no caso da
Páscoa, o 15 de Nisan seria sempre à quarta-feira, sendo a ceia pascal
consumada depois do ocaso na noite de terça-feira. Jaubert defende que Jesus
terá celebrado a Páscoa segundo este calendário, isto é, na terça-feira à
noite, e sido preso nessa noite que dá para quarta-feira.
Deste modo, a estudiosa vê resolvidos dois
problemas: por um lado, Jesus terá celebrado uma verdadeira ceia pascal, como
referem os sinópticos; por outro, João tem razão em que as autoridades
judaicas, atendo-se ao seu próprio calendário, celebraram a Páscoa só depois do
processo de Jesus; e, por conseguinte, Jesus terá sido justiçado na vigília da
verdadeira Páscoa e não no próprio dia da festa. Assim a tradição sinóptica e a
joanina apresentam-se igualmente certas com base na diferença que há entre dois
calendários diversos. A segunda vantagem sublinhada por Annie Jaubert mostra,
simultaneamente, o ponto fraco desta tentativa de encontrar uma solução.
Observa a estudiosa francesa que as cronologias
referidas (nos sinópticos e em João) têm de conjugar uma série de
acontecimentos no reduzido espaço de poucas horas: o interrogatório na presença
do Sinédrio, a transferência para Pilatos, o sonho da mulher de Pilatos, o
envio a Herodes, o regresso a Pilatos, a flagelação, a condenação à morte, a
via crucis e a crucifixão. Colocar tudo isto num arco de poucas horas parece –
segundo Jaubert – quase impossível. A este propósito, a sua solução proporciona
um espaço temporal que vai da noite entre terça-feira e quarta-feira até à
manhã de sexta-feira.
Neste contexto, a estudiosa mostra que, em Marcos,
nos dias de «Domingo de Ramos», segunda-feira, terça-feira e quarta-feira,
existe uma sequência concreta dos acontecimentos, mas depois se salta di-
rectamente para a ceia pascal. Por conseguinte, segundo a datação referida,
ficariam dois dias sobre os quais nada se refere. Por fim, re- corda Jaubert
que, deste modo, teria podido funcionar o projecto das autoridades judaicas de
matar Jesus ainda antes da festa. Mas Pilatos, com a sua titubeação, teria
depois adiado a crucifixão até sexta-feira.
No entanto, contra a mudança da data da Última Ceia
de quinta para terça-feira fala a antiga tradição da quinta-feira, que em todo
o caso encontramos claramente já no século II. A isto objecta a senhora Jaubert
citando o segundo texto sobre o qual assenta a sua tese: trata-se da chamada
Didascália dos Apóstolos, um escrito do início do século III que fixa a data da
Ceia de Jesus na terça-feira. A estudiosa procura demonstrar que este livro
terá recolhido uma tradição antiga, cujos vestígios poderão ser encontrados
também noutros textos.
A isto, porém, é preciso responder que os vestígios
da tradição encontrados são demasiado frágeis para poderem convencer. A outra
dificuldade consiste no facto de ser pouco verosímil o uso, por parte de Jesus,
de um calendário difundido principalmente em Qumrân. Nas grandes festas, Jesus
frequentava o templo. E, embora tenha predito o seu fim confirmando-o com um
acto simbólico dramático, Ele seguiu o calendário judaico das festividades,
como mostra sobretudo o Evangelho de João. Poder-se-á, sem dúvida, admitir com
a estudiosa francesa que o Calendário dos Jubileus não estava estritamente
confinado a Qumrân e aos Essénios. Mas isto não basta para poder fazê-lo valer
para a Páscoa de Jesus. Assim se explica que a tese, à primeira vista
fascinante, de Annie Jaubert seja rejeitada pela maioria dos exegetas.
Ilustrei esta tese de maneira particularmente
detalhada porque ela permite imaginar algo da multiplicidade e da complexidade
do mundo judaico no tempo de Jesus: um mundo que, não obstante o considerável
aumento dos nossos conhecimentos das fontes, podemos reconstituir apenas de
modo insuficiente. Portanto, não negaria a esta tese qual- quer probabilidade,
mas, tendo em consideração os seus problemas, penso que não é pura e
simplesmente possível acolhê-la.
Quê dizer então? A avaliação mais cuidada de todas
as soluções tentadas até agora, encontrei-a no livro sobre Jesus de John P.
Meier, que, no final do seu primeiro volume, expôs um amplo estudo sobre a
cronologia da vida de Jesus. E chega à conclusão de que é preciso escolher entre
a cronologia sinóptica e a joanina, demonstrando, com base no conjunto das
fontes, que a decisão deve ser favorável a João.
João tem razão quando afirma que, no momento do
processo de Jesus diante de Pilatos, as autoridades judaicas ainda não tinham comi-
do a Páscoa e por isso deviam conservar-se cultualmente puras. Tem razão ao
dizer que a crucifixão não teve lugar no dia da festa, mas na sua vigília. Isto
significa que Jesus morreu na altura em que se imolavam no templo os cordeiros
pascais. Que depois os cristãos tivessem visto nisso mais do que um puro acaso,
que tivessem reconhecido Jesus como o autêntico Cordeiro, que precisamente
assim tivessem encontrado o rito dos cordeiros elevado ao seu verdadeiro
significado – tudo isso é simplesmente normal.
Resta a pergunta: mas, então, porque é que os
sinópticos falam de uma ceia pascal? Em que se baseia esta linha da tradição?
Uma resposta verdadeiramente convincente a esta pergunta, nem Meier a pôde dar.
Todavia, faz a tentativa, como aliás muitos outros exegetas, através da crítica
redaccional e literária; procura demonstrar que os textos de Mc 14, 1a e 14,
12-16 – os únicos lugares onde se fala da Páscoa em Marcos – terão sido
inseridos posteriormente. Na narrativa verdadeira e própria da Última Ceia, não
seria mencionada a Páscoa.
Esta operação, apesar dos numerosos nomes
importantes que a sustentam, é artificial. Mas é justa a indicação de Meier
segundo a qual, na narrativa da própria Ceia feita pelos sinópticos, o ritual
pascal aparece tão pouco como em João. Assim, poder-se-á, embora com alguma
reserva, subscrever a afirmação de que «toda a tradição joanina [...] concorda
plenamente com a tradição original dos sinópticos relativamente ao carácter da
Ceia como não pertencente à Páscoa» (A Marginal Jew, I, p. 398).
Mas então o que foi, verdadeiramente, a Última Ceia
de Jesus? E como se chegou à concepção, seguramente muito antiga, do seu
carácter pascal? A resposta de Meier é surpreendentemente simples e, sob muitos
aspectos, convincente. Jesus estava consciente da sua mor- te iminente; sabia
que não mais iria poder comer a Páscoa. Nesta clara certeza, convidou os seus
para uma Última Ceia de carácter muito particular, uma Ceia que não pertencia a
nenhum rito judaico determinado, mas era a sua despedida, na qual Ele deu algo
novo, isto é, Se deu a Si mesmo como o verdadeiro Cordeiro, instituindo assim a
sua Páscoa.
Em todos os Evangelhos sinópticos fazem parte desta
Ceia as profecias de Jesus sobre a sua morte e sobre a sua ressurreição. Em
Lucas, elas assumem uma forma particularmente solene e misteriosa: «Tenho
ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer, pois
digo-vos que já não a voltarei a comer até ela ter pleno cumprimento no Reino
de Deus» (22, 15-16). A frase permanece equívoca: pode significar que Jesus
come, pela última vez, a Páscoa habitual com os seus; mas pode significar
também que já não a come mais, encaminhando-se para a nova Páscoa.
Um dado é evidente em toda a tradição: o essencial
desta Ceia de despedida não foi a Páscoa antiga, mas a novidade que Jesus
realizou neste contexto. Mesmo se esta refeição de Jesus com os Doze não foi
uma ceia pascal segundo as prescrições rituais do judaísmo, num olhar
retrospectivo tornou-se evidente, com a morte e a ressurreição de Jesus, o
significado intrínseco do todo: era a Páscoa de Jesus. E, neste sentido, Ele
celebrou a Páscoa e não a celebrou. Os ritos antigos não podiam ser praticados;
quando chegou o momento, Jesus já estava morto. Mas Ele entregara-Se a Si mesmo
e assim tinha celebrado com eles verdadeiramente a Páscoa. Desta forma, o
antigo não tinha sido negado, mas – e só assim poderia ser – levado ao seu
sentido pleno.
O primeiro testemunho desta visão unificadora do
novo e do antigo que é operada pela nova interpretação da Ceia de Jesus em
relação com a Páscoa no contexto das suas morte e ressurreição encontra-se em
Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 5, 7: «Purificai-vos do velho fermento,
para serdes uma nova massa, já que sois pães ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa,
foi imolado» (cf. Meier, A Marginal Jew, I, p. 429 s.). Como em Marcos 14, 1,
também aqui se sucedem o primeiro dia dos Ázimos e a Páscoa, mas o sentido
ritual de então é transformado num significado cristológico e existencial.
Agora, os «ázimos» devem ser os próprios cristãos, libertados do fermento do
pecado. E o Cordeiro imolado é Cristo. Nisto, Paulo concorda perfeitamente com
a descrição joanina dos acontecimentos. Assim, para ele, morte e ressurreição
de Cristo tornaram-se a Páscoa que permanece.
Com base nisto, pode-se compreender como a Última
Ceia de Jesus – que não era só um prenúncio, mas nos dons eucarísticos
compreendia também uma antecipação de cruz e ressurreição – bem depressa acabou
por ser considerada como Páscoa, como a sua Páscoa. E era-o verdadeiramente.




