segunda-feira, 24 de setembro de 2018

UMA REFLEXÃO SOBRE A DATA DA ÚLTIMA CEIA REFERENCIADA EM PUBLICAÇÃO DO PAPA BENTO XVI






RATZINGER, J. / BENTO XVI. Jesus de Nazaré: Da entrada em Jerusalém até a Ressurreição. São Paulo: Planeta, 2011. Cap 4. 313p. ISBN: 9788576656180.




SÍNTESE DO QUARTO CAPÍTULO


O problema da datação da Última Ceia de Jesus assenta no contraste, a este respeito, entre os Evangelhos sinópticos, de um lado, e o Evangelho de João, do outro. Marcos, que Mateus e Lucas seguem no essencial, oferece a este propósito uma datação precisa. «No primeiro dia dos Ázimos, quando se imolava a Páscoa, os discípulos perguntaram-Lhe: “Onde queres que façamos os preparativos para comeres a Páscoa?” [...] Chegada a noite, Jesus foi com os Doze» (Mc 14, 12.17). A tarde do primeiro dia dos Ázimos, quando no templo se imolavam os cordeiros pascais, é a vigília da Páscoa. Segundo a cronologia dos sinópticos trata-se de uma quinta-feira.
Depois do ocaso, começava a Páscoa, e foi então consumida a ceia pascal por Jesus com os seus discípulos, bem como por todos os peregrinos idos a Jerusalém. Na noite de quinta para sexta-feira – sempre segundo a cronologia sinóptica – Jesus foi preso e apresentado ao tribunal, na manhã de sexta-feira foi condenado à morte por Pila- tos e sucessivamente, «pela hora tércia» (cerca das nove da manhã), foi crucificado. A morte de Jesus deu-se à hora nona (cerca das três horas da tarde). «Ao cair da tarde, visto ser a Preparação, isto é, véspera do sábado, José de Arimateia [...] foi corajosamente procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus» (Mc 15, 42-43). A sepultura devia fazer-se ainda antes do ocaso porque depois começava o sábado. O sábado é o dia do repouso sepulcral de Jesus. A ressurreição tem lugar na manhã do «primeiro dia da semana», no domingo.
Esta cronologia vê-se comprometida pelo seguinte problema: o processo e a crucifixão de Jesus teriam acontecido na festa da Páscoa, que naquele ano calhava na sexta-feira. É verdade que muitos estudiosos procuraram demonstrar que o processo e a crucifixão eram compatíveis com as prescrições da Páscoa. Mas, não obstante toda a erudição, resta problemático que, naquela festa muito importante para os judeus, fossem admissíveis e possíveis o processo diante de Pilatos e a crucifixão. Aliás, esta hipótese vê-se obstaculizada também por uma informação fornecida por Marcos. Afirma ele que, dois dias antes da festa dos Ázimos, os sumos sacerdotes e os escribas procuravam maneira de se apoderarem de Jesus à má-fé para O matarem, mas a propósito declaravam: «Durante a festa não, para que o povo não se revolte» (14, 2; cf. v. 1). Segundo a cronologia sinóptica, porém, a execução capital de Jesus terá de facto tido lugar precisamente no dia da festa.
Vejamos agora a cronologia joanina. João tem o cuidado de não apresentar a Última Ceia como ceia pascal. Pelo contrário, as autoridades judaicas, que levam Jesus ao tribunal de Pilatos, evitam entrar no pretório «para não se contaminarem e poderem celebrar a Páscoa» (18, 28). A Páscoa começa apenas ao entardecer; durante o processo, ainda se está a pensar na ceia pascal; processo e crucifixão têm lugar no dia antes da Páscoa, na parasceve, a «preparação», e não na própria festa. Naquele ano, portanto, a Páscoa estende-se do ocaso de sexta-feira até ao ocaso de sábado, e não do entardecer de quinta-feira até ao entardecer de sexta-feira.
Quanto ao resto, o desenrolar dos acontecimentos permanece o mesmo. Na tarde de quinta-feira, a Última Ceia de Jesus com os discípulos, que não é porém uma ceia pascal; na sexta-feira, a vigília da festa, e não a própria festa, o processo e a execução capital; no sábado, o repouso no sepulcro; no domingo, a ressurreição. Com esta cronologia, Jesus morre na hora em que são imolados no templo os cordeiros pascais. Morre como o verdadeiro Cordeiro, que estava apenas preanunciado nos cordeiros.
Esta coincidência, teologicamente importante, de Jesus morrer contemporaneamente com a imolação dos cordeiros pascais tem levado muitos estudiosos a desmerecerem a versão joanina como cronologia teológica. João teria mudado a cronologia para construir esta coincidência teológica, que todavia no Evangelho não é explicitamente afirmada. Mas, hoje, vai-se vendo de maneira cada vez mais clara que a cronologia joanina é historicamente mais provável do que a sinóptica, visto que – como se disse – processo e execução capital no dia da festa parecem pouco concebíveis. Por outro lado, a Última Ceia de Jesus aparece tão estreitamente ligada à tradição da Páscoa que a negação do seu carácter pascal redunda problemática.
Por isso desde há muito que se fazem tentativas para conciliar as duas cronologias. A mais importante e, em vários dos seus pormenores, fascinante de chegar a uma compatibilidade entre as duas tradições provém da estudiosa francesa Annie Jaubert, que desde 1953 tem vindo a desenvolver a sua tese numa série de publicações. Dado que aqui não devemos entrar nos detalhes da sua proposta, limitamo-nos ao essencial.
A Sra.Jaubert baseia-se principalmente em dois textos antigos que parecem apontar para uma solução do problema. O primeiro é a indicação de um calendário sacerdotal antigo, presente no Livro dos Jubileus, que foi redigido em língua hebraica na segunda metade do século II antes de Cristo. Este calendário não toma em consideração a translação da Lua, prevendo um ano de 364 dias, dividido em quatro estações de três meses, dois dos quais têm 30 dias e o outro 31. Cada trimestre, sempre com 91 dias, contém exactamente 13 semanas, e cada ano 52 semanas. Consequentemente, as festas litúrgicas de cada ano seriam sempre no mesmo dia da semana. Isto significa que, no caso da Páscoa, o 15 de Nisan seria sempre à quarta-feira, sendo a ceia pascal consumada depois do ocaso na noite de terça-feira. Jaubert defende que Jesus terá celebrado a Páscoa segundo este calendário, isto é, na terça-feira à noite, e sido preso nessa noite que dá para quarta-feira.
Deste modo, a estudiosa vê resolvidos dois problemas: por um lado, Jesus terá celebrado uma verdadeira ceia pascal, como referem os sinópticos; por outro, João tem razão em que as autoridades judaicas, atendo-se ao seu próprio calendário, celebraram a Páscoa só depois do processo de Jesus; e, por conseguinte, Jesus terá sido justiçado na vigília da verdadeira Páscoa e não no próprio dia da festa. Assim a tradição sinóptica e a joanina apresentam-se igualmente certas com base na diferença que há entre dois calendários diversos. A segunda vantagem sublinhada por Annie Jaubert mostra, simultaneamente, o ponto fraco desta tentativa de encontrar uma solução.
Observa a estudiosa francesa que as cronologias referidas (nos sinópticos e em João) têm de conjugar uma série de acontecimentos no reduzido espaço de poucas horas: o interrogatório na presença do Sinédrio, a transferência para Pilatos, o sonho da mulher de Pilatos, o envio a Herodes, o regresso a Pilatos, a flagelação, a condenação à morte, a via crucis e a crucifixão. Colocar tudo isto num arco de poucas horas parece – segundo Jaubert – quase impossível. A este propósito, a sua solução proporciona um espaço temporal que vai da noite entre terça-feira e quarta-feira até à manhã de sexta-feira.
Neste contexto, a estudiosa mostra que, em Marcos, nos dias de «Domingo de Ramos», segunda-feira, terça-feira e quarta-feira, existe uma sequência concreta dos acontecimentos, mas depois se salta di- rectamente para a ceia pascal. Por conseguinte, segundo a datação referida, ficariam dois dias sobre os quais nada se refere. Por fim, re- corda Jaubert que, deste modo, teria podido funcionar o projecto das autoridades judaicas de matar Jesus ainda antes da festa. Mas Pilatos, com a sua titubeação, teria depois adiado a crucifixão até sexta-feira.
No entanto, contra a mudança da data da Última Ceia de quinta para terça-feira fala a antiga tradição da quinta-feira, que em todo o caso encontramos claramente já no século II. A isto objecta a senhora Jaubert citando o segundo texto sobre o qual assenta a sua tese: trata-se da chamada Didascália dos Apóstolos, um escrito do início do século III que fixa a data da Ceia de Jesus na terça-feira. A estudiosa procura demonstrar que este livro terá recolhido uma tradição antiga, cujos vestígios poderão ser encontrados também noutros textos.
A isto, porém, é preciso responder que os vestígios da tradição encontrados são demasiado frágeis para poderem convencer. A outra dificuldade consiste no facto de ser pouco verosímil o uso, por parte de Jesus, de um calendário difundido principalmente em Qumrân. Nas grandes festas, Jesus frequentava o templo. E, embora tenha predito o seu fim confirmando-o com um acto simbólico dramático, Ele seguiu o calendário judaico das festividades, como mostra sobretudo o Evangelho de João. Poder-se-á, sem dúvida, admitir com a estudiosa francesa que o Calendário dos Jubileus não estava estritamente confinado a Qumrân e aos Essénios. Mas isto não basta para poder fazê-lo valer para a Páscoa de Jesus. Assim se explica que a tese, à primeira vista fascinante, de Annie Jaubert seja rejeitada pela maioria dos exegetas.
Ilustrei esta tese de maneira particularmente detalhada porque ela permite imaginar algo da multiplicidade e da complexidade do mundo judaico no tempo de Jesus: um mundo que, não obstante o considerável aumento dos nossos conhecimentos das fontes, podemos reconstituir apenas de modo insuficiente. Portanto, não negaria a esta tese qual- quer probabilidade, mas, tendo em consideração os seus problemas, penso que não é pura e simplesmente possível acolhê-la.

Quê dizer então? A avaliação mais cuidada de todas as soluções tentadas até agora, encontrei-a no livro sobre Jesus de John P. Meier, que, no final do seu primeiro volume, expôs um amplo estudo sobre a cronologia da vida de Jesus. E chega à conclusão de que é preciso escolher entre a cronologia sinóptica e a joanina, demonstrando, com base no conjunto das fontes, que a decisão deve ser favorável a João.
João tem razão quando afirma que, no momento do processo de Jesus diante de Pilatos, as autoridades judaicas ainda não tinham comi- do a Páscoa e por isso deviam conservar-se cultualmente puras. Tem razão ao dizer que a crucifixão não teve lugar no dia da festa, mas na sua vigília. Isto significa que Jesus morreu na altura em que se imolavam no templo os cordeiros pascais. Que depois os cristãos tivessem visto nisso mais do que um puro acaso, que tivessem reconhecido Jesus como o autêntico Cordeiro, que precisamente assim tivessem encontrado o rito dos cordeiros elevado ao seu verdadeiro significado – tudo isso é simplesmente normal.
Resta a pergunta: mas, então, porque é que os sinópticos falam de uma ceia pascal? Em que se baseia esta linha da tradição? Uma resposta verdadeiramente convincente a esta pergunta, nem Meier a pôde dar. Todavia, faz a tentativa, como aliás muitos outros exegetas, através da crítica redaccional e literária; procura demonstrar que os textos de Mc 14, 1a e 14, 12-16 – os únicos lugares onde se fala da Páscoa em Marcos – terão sido inseridos posteriormente. Na narrativa verdadeira e própria da Última Ceia, não seria mencionada a Páscoa.
Esta operação, apesar dos numerosos nomes importantes que a sustentam, é artificial. Mas é justa a indicação de Meier segundo a qual, na narrativa da própria Ceia feita pelos sinópticos, o ritual pascal aparece tão pouco como em João. Assim, poder-se-á, embora com alguma reserva, subscrever a afirmação de que «toda a tradição joanina [...] concorda plenamente com a tradição original dos sinópticos relativamente ao carácter da Ceia como não pertencente à Páscoa» (A Marginal Jew, I, p. 398).
Mas então o que foi, verdadeiramente, a Última Ceia de Jesus? E como se chegou à concepção, seguramente muito antiga, do seu carácter pascal? A resposta de Meier é surpreendentemente simples e, sob muitos aspectos, convincente. Jesus estava consciente da sua mor- te iminente; sabia que não mais iria poder comer a Páscoa. Nesta clara certeza, convidou os seus para uma Última Ceia de carácter muito particular, uma Ceia que não pertencia a nenhum rito judaico determinado, mas era a sua despedida, na qual Ele deu algo novo, isto é, Se deu a Si mesmo como o verdadeiro Cordeiro, instituindo assim a sua Páscoa.
Em todos os Evangelhos sinópticos fazem parte desta Ceia as profecias de Jesus sobre a sua morte e sobre a sua ressurreição. Em Lucas, elas assumem uma forma particularmente solene e misteriosa: «Tenho ardentemente desejado comer esta Páscoa convosco, antes de padecer, pois digo-vos que já não a voltarei a comer até ela ter pleno cumprimento no Reino de Deus» (22, 15-16). A frase permanece equívoca: pode significar que Jesus come, pela última vez, a Páscoa habitual com os seus; mas pode significar também que já não a come mais, encaminhando-se para a nova Páscoa.
Um dado é evidente em toda a tradição: o essencial desta Ceia de despedida não foi a Páscoa antiga, mas a novidade que Jesus realizou neste contexto. Mesmo se esta refeição de Jesus com os Doze não foi uma ceia pascal segundo as prescrições rituais do judaísmo, num olhar retrospectivo tornou-se evidente, com a morte e a ressurreição de Jesus, o significado intrínseco do todo: era a Páscoa de Jesus. E, neste sentido, Ele celebrou a Páscoa e não a celebrou. Os ritos antigos não podiam ser praticados; quando chegou o momento, Jesus já estava morto. Mas Ele entregara-Se a Si mesmo e assim tinha celebrado com eles verdadeiramente a Páscoa. Desta forma, o antigo não tinha sido negado, mas – e só assim poderia ser – levado ao seu sentido pleno.
O primeiro testemunho desta visão unificadora do novo e do antigo que é operada pela nova interpretação da Ceia de Jesus em relação com a Páscoa no contexto das suas morte e ressurreição encontra-se em Paulo, na Primeira Carta aos Coríntios 5, 7: «Purificai-vos do velho fermento, para serdes uma nova massa, já que sois pães ázimos. Pois Cristo, nossa Páscoa, foi imolado» (cf. Meier, A Marginal Jew, I, p. 429 s.). Como em Marcos 14, 1, também aqui se sucedem o primeiro dia dos Ázimos e a Páscoa, mas o sentido ritual de então é transformado num significado cristológico e existencial. Agora, os «ázimos» devem ser os próprios cristãos, libertados do fermento do pecado. E o Cordeiro imolado é Cristo. Nisto, Paulo concorda perfeitamente com a descrição joanina dos acontecimentos. Assim, para ele, morte e ressurreição de Cristo tornaram-se a Páscoa que permanece.
Com base nisto, pode-se compreender como a Última Ceia de Jesus – que não era só um prenúncio, mas nos dons eucarísticos compreendia também uma antecipação de cruz e ressurreição – bem depressa acabou por ser considerada como Páscoa, como a sua Páscoa. E era-o verdadeiramente.


sábado, 22 de setembro de 2018

UMA BREVE REFLEXÃO SOBRE O PRIMEIRO DIA DO TRÍDUO PASCAL



A tarde de Sexta-feira Santa apresenta o drama imenso da morte de Cristo no Calvário. A cruz erguida sobre o mundo segue de pé como sinal de salvação e de esperança.
Com a Paixão de Jesus segundo o Evangelho de João comtemplamos o mistério do Crucificado, com o coração do discípulo Amado, da Mãe, do soldado que lhe traspassou o lado.
A Mãe estava ali, junto à Cruz. Não chegou de repente no Gólgota, desde que o discípulo amado a recordou em Caná, sem ter seguido passo a passo, com seu coração de Mãe no caminho de Jesus. E agora está ali como mãe e discípula que seguiu em tudo a sorte de seu Filho, sinal de contradição como Ele, totalmente ao seu lado. Mas solene e majestosa como uma Mãe, a mãe de todos, a nova Eva, a mãe dos filhos dispersos que ela reúne junto à cruz de seu Filho.
O soldado que traspassou o lado de Cristo no lado do coração, não se deu conta que cumpria uma profecia realizava um últmo, estupendo gesto litúrgico. Do coração de Cristo brota sangue e água. O sangue da redenção, a água da salvação. O sangue é sinal daquele maior amor, a vida entregue por nós, a água é sinal do Espírito, a própria vida de Jesus que agora, como em uma nova criação derrama sobre nós.

I. A CELEBRAÇÃO

Hoje não se celebra a missa em todo o mundo. O altar é iluminado sem toalha, sem cruz, sem velas nem adornos. Recordamos a morte de Jesus. A impressionante celebração litúrgica da Sexta-feira começa com um rito de entrada diferente de outros dias: os ministros ordenados entram em silëncio, sem canto, e se prostram no chão frente ao altar, enquanto a comunidade se ajoelha. São a imagem da humanidade rebaixada e oprimida, e ao mesmo tempo penitente que implora perdão por seus pecados.
Vão vestidos de vermelho, a cor dos mártires: de Jesus, o primeiro testeunho do amor do Pai e de todos aqueles que, como ele, deram e continuam dando sua vida para proclamar a libertação que Deus nos oferece. Depois de um espaço de silêncio, reza a oração do dia.

II. PRIMEIRA LEITURA (IS 52,13–53,12)

Espetacular realismo nesta profecia feita 800 anos antes de Cristo, que nos introduz a alma sofredora de Cristo, durante toda sua vida e agora na hora real de sua morte. Disponhamo-nos a vivê-la com Ele.

III. SALMO RESPONSORIAL (SL 30, 2 E 6. 12–13. 15–16. 17 E 25.)

Neste Salmo, recitado por Jesus na cruz, entrecruzam-se a confiança, a dor, a solidão e a súplica: com o Homem das dores, façamos nossa oração.

IV. SEGUNDA LEITURA (HB 4,14–16; 5,7–9)

O Sacerdote é o que une Deus ao homem e os homens a Deus… Por isso Cristo é o perfeito Sacerdote: Deus e Homem. O Único e Sumo e Eterno Sacerdote. Do qual o Sacerdócio: o Papa, os Bispos, os sacerdotes e dos Diáconos unidos a Ele, são ministros, servidores, ajudantes…

V. VERSÍCULO ANTES O EVANGELHO (FL 2, 8–9)

Cristo, por nós, humilhou-se e foi obediente até a morte, e morte de cruz. Por isso Deus o sobreexaltou grandemente e o agraciou com o Nome que é acima de todo nome.

VI. EVANGELHO (JO 18,1–19,42)

São João, teólogo e cronista da paixão, nos leva a comtemplar o mistério da cruz de Cristo como uma solene liturgia. Tudo é digno, solene, simbólico em sua narração: cada palavra, cada gesto.
Como sempre, a celebração da Palavra, depois da homilia conclui-se com uma Oração Universal, que hoje tem mais sentido do que nunca: precisamente porque comtemplamos a Cristo entregue na cruz como Redentor da humanidade, pedimos a Deus a salvação de todos, crentes e não crentes.

VII. A ADORAÇÃO DA CRUZ

Depois das palavras passamos a um ato simbólico muito expressivo e próprio deste dia: a veneração da Santa Cruz é apresentada solenemente a Cruz à comunidade, cantando três vezes a aclamação:
“Eis o lenho da Cruz, onde esteve pregada a salvação do mundo. Ó VINDE ADOREMOS!”, e todos ajoelhados uns instantes de cada vez, e então vamos, em procissão, venerar a Cruz pessoalmente, com uma genuflexão (ou inclinação profunda) e um beijo (ou tocando-a com a mão e fazendo o sinal da cruz ); enquanto cantamos louvores ao Cristo na Cruz.

VIII. A COMUNHÃO

Desde de 1955, quando Pio XII decidiu, na reforma que fez na Semana Santa, não somente o sacerdote — como até então — mas também os fiéis podem comungar com o Corpo de Cristo.
Ainda que hoje não haja propriamente Eucaristia, mas comungando do Pão consagrado na celebração de ontem, Quinta-feira Santa, expressamos nossa participação na morte salvadora de Cristo, recebendo seu “Corpo entregue por nós".

segunda-feira, 17 de setembro de 2018

RESUMO SOBRE OS ANJOS NA SUMA TEOLÓGICA DE SÃO TOMÁS DE AQUINO (60-64q)


1. INTRODUÇÃO


Ao pensar sobre os anjos, com muita facilidade vem-nos à mente a clássica representação de um misterioso jovem de bela aparência, trajando uma longa e alva túnica. Não podemos considerá-la uma imagem errada, visto que nas próprias Escrituras eles são assim figurados, como por exemplo, no episódio de Tobias.
Já em nossa época, as aparições de Fátima foram precedidas de algumas intervenções angélicas. O Anjo da Paz apareceu três vezes aos pastorinhos e foi assim descrito mais tarde pela Irmã Lúcia, uma das videntes: “Começamos a ver (…) uma luz mais branca que a neve, com a forma de um jovem transparente, mais brilhante que um cristal atravessado pelos raios do sol. À medida que se aproximava, íamos-lhe distinguindo as feições: um jovem dos seus 14 a 15 anos, de uma grande beleza. Estávamos surpreendidos e meio absortos.” A descrição da Irmã Lúcia pouco revela a respeito dos seres angélicos, apenas aumenta o mistério que os cerca.
Mesmo na Sagrada Escritura, não há elementos precisos sobre sua natureza e atributos; o que se conhece é deduzido de sua atuação, nas missões a eles confiadas por Deus junto aos homens.
Quem são, afinal, os anjos? Que predicados possuem? A resposta, nós a encontramos nos escritos de um dos autores que mais a fundo tratou do assunto: São Tomás de Aquino, o Doutor Angélico. Com base em sua doutrina, vejamos algumas das interessantes questões relativas aos anjos.
Ao criar, Deus teve em vista “a perfeição do Universo como finalidade principal”[1], pois tinha intenção de espelhar o supremo Bem, ou seja, Ele mesmo. Por isso, fez em maior número os seres mais elevados. E os espíritos celestes, os quais superam em dom e qualidade qualquer ser corporal, foram criados em tal quantidade que, perto deles, todas as estrelas do firmamento não passam de um punhadinho de pedras preciosas.
Todos os homens – desde Adão até o último a nascer no fim do mundo – são poucos em relação às miríades de puros espíritos que espelham tão perfeitamente o Criador dos homens e dos anjos. É com grande veracidade que Dionísio confessou humildemente: “Os exércitos bem-aventurados dos espíritos celestes são numerosos, superando a medida pequena e restrita de nossos números materiais”[2]
Segundo o Doutor Angélico, as criaturas devem representar a bondade de Deus. Mas nenhuma criatura – nem sequer Maria Santíssima! – é capaz de representar suficientemente toda a bondade divina. Por isso, Ele criou múltiplos e distintos seres. Assim, cada indivíduo representa um aspecto diferente do Bem Supremo, e um suprirá aquilo que no outro não se encontra.
Os seres criados – se postos em escala, de inferior a superior – formam uma imensa cadeia, onde o conjunto de diversos graus, cada qual mais requintado, dá uma noção mais completa e arquitetônica da Suma Perfeição do que qualquer um deles individualmente[3].
Ademais, na medida em que as criaturas se aproximam do Bem Supremo, as diferenças entre elas se multiplicam, para melhor espelhar a riqueza infinita dos dons de Deus. Deste modo, a extrema variedade do mundo angélico supera tanto a do mundo físico que este, comparativamente, parece empalidecido, pobre e até monótono! Entre os anjos, não há indivíduos semelhantes, agrupados em famílias ou raças, como ocorre no gênero humano.
Cada um difere do outro, como se fossem espécies diversas.[4] São Tomás de Aquino, baseando-se nas Escrituras, divide-os em três hierarquias e nove coros: “Isaías fala dos Serafins; Ezequiel, dos Querubins; Paulo, dos Tronos, das Dominações, das Virtudes, das Potestades, dos Principados; Judas fala dos Arcanjos, enquanto o nome dos Anjos está em muitos lugares da Escritura”[5].
Enquanto São Dionísio explica a divisão da hierarquia angélica em função de suas perfeições espirituais, São Gregório o faz de acordo com seus ministérios exteriores: “Os Anjos são aqueles que anunciam as coisas menos importantes; os Arcanjos, os que anunciam as mais importantes; as Virtudes, por elas se realizam os milagres; as Potestades, pelas quais se reprimem os maus poderes; os Principados, que presidem os próprios espíritos bons”[6]
Os anjos podem influenciar profundamente os homens, embora o façam sempre discretamente, pois a humildade também é uma virtude angélica.
Quantas vezes, uma boa inspiração tem origem num anjo! Ou quando o pressentimento de algum perigo grave leva a pessoa a tomar medidas e escapar de um acidente ou livrar-se de um grande dano, certamente foi algum solícito anjo que zelou pelo bem de seu protegido.
Mas os anjos exercem um importante papel, sobretudo no que diz respeito à fé, como nos ensina o Doutor Angélico: “Dionísio prova que as revelações das coisas divinas chegam aos homens mediante os anjos. Essas revelações são iluminações. Portanto, os homens são iluminados pelos anjos”.[7]
“Pela ordem da Divina Providência – continua São Tomás – os inferiores se submetem às ações dos superiores. Assim como os anjos inferiores são iluminados pelos superiores, assim os homens, inferiores aos anjos, são por eles iluminados. […] Por outro lado, o intelecto humano, enquanto inferior, é fortalecido pela ação do intelecto angélico”.[8]
O Doutor Angélico cita o comentário de São Jerônimo às palavras do Divino Mestre: “seus anjos [dos pequeninos] no Céu contemplam sempre a face de meu Pai” (Mt 18, 10). “Grande é a dignidade das almas – afirma São Jerônimo -, pois, ao nascer, cada uma tem um anjo delegado à sua guarda”[9]. Assim, cada homem recebe um príncipe da corte celeste que nunca o abandona, por mais culposas ou pavorosas que sejam as situações pelas quais passe. Tal como se reza na conhecida oração ao anjo da guarda (Santo Anjo do Senhor) ele rege, guarda, governa e ilumina o seu protegido.
O anjo ilumina o homem para incliná-lo ao bem ou comunicar-lhe a vontade divina[10] e o protege contra os assaltos do demônio. Sobretudo, o anjo continua sempre na presença de Deus, mesmo estando ao lado de seu protegido, intercedendo continuamente por ele.


2. OS ANJOS NOS ENSINAMENTOSDE SÃO TOMÁS DE AQUINO


A análise a seguir, feita pela autora, é apoiada nos ensinamentos de São Tomás de Aquino, do livro Suma Teológica Ia, A Primeira Parte, Questões: 60-64, como apresentado no livro Uma Excurção do Summa, escrito por Monsenhor Paul J. Glenn e
traduzido para o português pela  Profª. Oliveira de Danielize.


60. O AMOR NOS ANJOS

1. O amor é uma inclinação natural da vontade sobre seu objetivo. É a operação fundamental da vontade. Aonde há vontade há amor. Sendo assim há amor nos anjos.
2. O amor no anjo não é somente uma tendência natural, é uma tendência ciente da ordem intelectual e involve não somente inclinação, mas escolha.
3. Cada ser ama a si mesmo tanto que procura seu próprio bem. Criaturas livres amam a si mesmas dessa maneira e tendem, ou desejam o que lhe sera de benefício próprio. E assim como criaturas livres exercitam pela escolha de lutar por um objeto benéfico, diz-se que amam a si mesmos por escolha. Anjos amam a si mesmos por ambas tendência natural e escolha.
4. O amor natural de uma criatura pela outra é baseado em um ponto de unidade ou igualdade do amante e amado. Já que os anjos são todos de uma mesma natureza espiritual, eles naturalmente amam uns aos outros. [Note que: Os anjos são genericamente um. Eles são do mesmo gene ou classe essencial . Já vimos que eles são especificamente distintos, que cada anjo é o único de seu específico tipo essencial.]
5. Pelo amor natural, os anjos amam a Deus mais do que a si mesmos. Todas as criaturas pertencem absolutamente a Deus. Eles se inclinam a Deus como seu destino final ou objetivo. As criaturas, que amam livremente, devem reconhecer a Deus como seu final ou objetivo e buscá-lo acima de tudo. O amor de Deus vem naturalmente (em criaturas livres) antes do amor a si mesmo e é o amor maior. Se não fosse assim, o amor natural seria uma contradição, porque não seria aperfeiçoado por atingir seu objetivo verdadeiro, mas seria sem frutos e auto-destruidor.


61. A CRIAÇÃO DOS ANJOS

1. Anjos são criaturas. Eles existem, não por necessidade, mas a existência dada lhes dada. Ou seja, eles tem existência por participação. Agora, o que tem existência por participação recebe esta existência daquele que tem a existência como sua própria essência. Somente Deus existe por sua própria essência. Sendo assim, anjos tem sua existência de Deus; eles são criados.

2. Deus sozinho existe desde a eternidade. Eles cria coisas produzindo-as a partir do nada. Criaturas existem depois de nunca haverem existido. Então anjos não existem desde a eternidade.
3. O mais provável é que os anjos e o mundo tenham sido criados ao mesmo tempo, e não anjos primeiro (como um tipo de mundo independente dos espíritos) e mundo depois. Anjos são parte do universo, e nenhuma parte é perfeita se totalmente separada do todo, da totalidade a qual pretence.
4. Os anjos são criados no céu. E é cabível que criaturas da mais perfeita natureza devam ser criadas no lugar mais nobre.


62. GRAÇA E GLÓRIA DOS ANJOS

1. Apesar dos anjos serem criados no céu, e com felicidade ou beatitude naturais, eles não foram criados na glória, ou seja, com posse da visão beatificada.
2. Para ter a Deus na visão beatificada os anjos requerem graça.
3. E, enquanto os anjos foram criados em estado de graça santificadora, esta não era a graça a qual confirma os anjos na glória. Se os anjos tivessem sido criados na graça confirmadora, nenhum poderia ter caído, e alguns caíram.
4. Anjos foram criados na graça e usando essa graça em seu primeiro ato de caridade (que é a amizade e amor a Deus) eles mereceram a visão beatificada e a beatitude celeste.
5. Logo que mereceram a beatitude celeste, os anjos a possuíram. A natureza angelical, sendo puramente espiritual, não se adequa a passos e degraus progressivos para a perfeição, como no caso de um homem.
6. Os anjos mais altos, aqueles de natureza mais perfeita e inteligência mais aguçada, tem dons maiores de graça que outros anjos; pois seus poderes mais perfeitos os torna mais poderosos e efetivos a Deus do que no caso dos anjos de menos capacidade.
7. A beatitude celeste desfrutada pelos anjos não destrói sua natureza ou suas operações naturais; então o conhecimento natural e amor dos anjos permanence neles depois que eles são beatificados.

8. Anjos beatificados não podem pecar. Sua natureza encontra preenchimento perfeito na visão de Deus; estão dispostos em direção a Deus exclusivamente. Em anjos beatificados não existe tendência possível do distanciamento de Deus, sendo assim não há pecado possível.
9. Anjos que tem a Deus na visão beatificada não são aumentados ou avançados em beatitude. Uma capacidade que é perfeitamente preenchida não pode ser ainda mais preenchida.


63. PECADO DOS ANJOS CAÍDOS

1. Uma criatura racional (ou seja, uma criatura com intelecto e vontade) pode pecar. Se incapaz de pecar, este é um dom da graça, não uma condição da natureza. Enquanto os anjos não eram ainda beatificados poderiam pecar. E alguns pecaram com frequencia.
2. Os anjos pecadores (ou demônios) são culpados de todos os pecados até que levem o homem a cometer todo tipo de pecado. Mas nos anjos maus não poderia haver tendência a pecados carnais, mas só aqueles pecados que poderiam ser cometidos por seres puramente espirituais. Estes pecados são somente dois: orgulho e inveja.
3.Lúcifer que se tornou Satan, líder dos anjos caídos, desejou ser como Deus. Este desejo orgulhoso não era a vontade de ser igual a Deus, pois Satan sabia por seu conhecimento natural que igualdade entre criatura e criador é absolutamente impossível. Além do que nenhuma criatura deseja se auto-destruir, até mesmo para tornar-se algo maior. Nesse ponto o homem algumas vezes engana a si mesmo com um truque de imaginação; ele se imagina outro e maior ser, e ainda é ele que é, de alguma maneira, esse outro ser. Mas um anjo não tem a faculdade da imaginação para abusar dessa maneira. O intelecto angelical, com seu conhecimento claro, torna esse truque de enganar a si mesmo impossível. Lúcifer sabia que para ser igual a Deus, ele teria que ser Deus, e ele sabia perfeitamente que isso não poderia acontecer. O que ele queria era ser como Deus; ele gostaria de ser como Deus de uma maneira não cabível a sua natureza, tais como criar coisas com seu próprio poder, ou alcançar total beatitude sem a ajuda de Deus, ou ter o comando sobre outros de maneira própria somente a Deus.

4. Toda natureza, isto é, cada essência em operação tende ao bem. Uma natureza intelectual tende ao bem em geral, o bem sob seus aspectos comuns, o bem como tal. Portanto os anjos caídos não são naturalmente maus.
5. O diabo não pecou no exato momento de sua criação. Quando uma causa perfeita faz uma natureza, a primeira operação daquela natureza deve estar em linha com a perfeição de sua causa. Portanto o demônio não foi criado na maldade. Ele, como todos os anjos, foi criado no estado de graça santificadora.
6. Mas o demônio, com seus companheiros, pecou imediatamente depois de sua criação. Ele rejeitou a graça na qual ele foi criado e a qual era designado a usar, como os anjos bons a usavam para merecer a beatitude. Se, no entanto, os anjos não foram criados na graça, mas tiveram a graça disponível logo depois de serem criados, então pode ter ocorrido um intervalo entre a criação e o pecado de Lúcifer e seus companheiros.
7. Lúcifer, chefe dos anjos pecadores, era provavelmente o mais alto de todos os anjos. Mas há quem pense que Lúcifer era o maior somente entre os anjos rebeldes.
8. O pecado do mais alto dos anjos foi um mau exemplo o qual atraiu os outros anjos rebeldes e foi, a esta extensão, a causa de seus pecados.
9. Os anjos fiéis são uma multidão maior que os anjos caídos. Pois pecado é contrário a ordem natural. Sendo que, o que opõe a ordem natural ocorre com menos frequencia, ou em menos exemplos, do que o que está de acordo com a ordem natural.


64. O ESTADO DOS ANJOS CAÍDOS

1. Os anjos caídos não perderam seu conhecimento natural pelo seu pecado; nem perderam seu intelecto angelical.
2. Os anjos caídos são obstinados no mal, não se arrependem, são inflexíveis em seu pecado. Isso segue de sua natureza como espíritos puros, pois a escolha de um espírito puro é necessariamente final e imutável.
3.Ainda, devemos dizer que há tristeza nos anjos caídos, embora não seja a tristeza do arrependimento. Eles tem tristeza na aflição de saber que não podem atingir a beatitude; que há barreiras sobre sua vontade má; que os homens, apesar de seus esforços contrários, podem chegar oa céu.
4. Os anjos caídos estão engajados em combater o homem contra sua salvação e em torturar almas perdidas no inferno. Os anjos caídos que rodeiam os homens na terra, carregam consigo sua própria escuridão e atmosfera de punição. E onde quer que estejam suportam as dores do inferno.


REFERÊNCIAS

AQUINO, Tomás de; FAITANIN, Paulo. Sobre os Anjos. Tradução de Luiz ASTORGA. Rio de Janeiro: Sétimo Selo, 2006. 229 p., Brochura, 12x20. Tradução de De Substantiis Separatis. ISBN 85-99255-05-3.

AQUINO, São Tomás de. Suma Teológica. 2. ed. São Paulo: Loyola, 2001. 9 v. (Volume II). Parte I (60-64q).

ARAUTOS DO EVANGELHO: Os anjos como são?. São Paulo: Arautos do Evangelho, n. 69, 10 set. 2007. Mensal. Disponível em: <http://www.arautos.org/secoes/artigos/doutrina/anjos/os-anjos-como-sao-140807#topo>. Acesso em: 4 set. 2017

GLENN, Monsenhor Paul J. Anjos: dos Ensinamentos de São Tomás de Aquino. 2012. Tradução: Oliveira de Danielize. Disponível em: <http://jesus-passion.com/os_anjos.htm>. Acesso em: 4 set. 2017.




[1] Suma Teológica I, q.50, a.3 resp.

[2] De Caelesti Hierarchia, cap.14, in MIGNE, PG, 3, 321 A.
[3] cf. I, q. 47, a. 1e 2.
[4] cf. I, q. 50, a. 4.
[5] I, q.,108, a.,5 s.c.
[6] cf. I, q 108, a.,5 resp.
[7] I, q. 111 a. 1 s.c.
[8] I, q. 111, a.1 resp
[9] MIGNE, PL, 26, 130 B
[10] cf. I, q. 111, a. 1.

sábado, 15 de setembro de 2018

COMENTÁRIOS À LUZ JUDAICA SOBRE O CULTO CRISTÃO NOS PRIMEIROS SÉCULOS




I. ELEMENTOS OU COMPONENTES ESSENCIAIS NA LITURGIA CRISTÃ

            Deus se comunica com a gente através de sinais sensíveis. Ora, é na celebração da divina Liturgia que temos um dos lugares mais excelentes em que Deus, no Cristo e pelo Espírito Santo, comunica ao seu povo o dom de sua presença salvadora. Por isso, a Liturgia é feita de sinais sensíveis. Toda ela, em todos os seus detalhes, tem (e deve ter!) sua indispensável dimensão simbólico-sacramental. A começar pelo lugar físico em que acontece a celebração litúrgica. São quatro são os elementos fundamentais que não devem faltar na organização do espaço litúrgico, pelos quais nos é dado perceber a presença amorosa de Deus na celebração da divina Liturgia.

A) O ALTAR: SÍMBOLO DE CRISTO
O centro de nossa fé cristã é o sacrifício de Cristo, sua total entrega por nós, confirmada pela Ressurreição e pelo dom do Espírito. Ora, esta entrega se faz hoje presente precisamente sobre o altar de nossas igrejas, toda vez que celebramos o memorial da Páscoa, na santa Missa! E mais, como explicita a Instrução Geral do Missal Romano – IGMR: Ele “é também a mesa do Senhor na qual o povo de Deus é convidado a participar por meio da Missa; é ainda o centro da ação de graças que se realiza pela Eucaristia” (nº 296).
Assim sendo, o ponto de convergência e atenção, dentro do espaço celebrativo, tem de ser necessariamente o altar. E nada tem o direito de “roubar-lhe a cena”. Pois ele re-presenta (traz-nos presente à memória) o que é mais sagrado para nós: Cristo em sua entrega total por nós, ontem, hoje e sempre.

B) A MESA DA PALAVRA
Antes de celebrarmos o memorial do Sacrifício redentor de Cristo, Deus nos fala e nos comunica o seu amor quando são feitas as leituras, inclusive quando se canta o Salmo responsorial. Como explicitamente diz a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, do Concílio Vaticano II: Cristo está presente “pela sua palavra, pois é Ele mesmo que fala quando se leem as Sagradas Escrituras na igreja” (SC 7).
Assim sendo, “a dignidade da palavra de Deus requer na igreja um lugar condigno de onde possa ser anunciada e para onde se volte espontaneamente a atenção dos fiéis no momento da liturgia da Palavra” (IGMR, nº 309). Trata-se da mesa da Palavra, ou ambão. É espaço litúrgico de fundamental importância simbólico-sacramental, pois evoca a presença viva do Senhor falando para o seu povo.

C) O ESPAÇO DA ASSEMBLEIA
Outro elemento fundamental de um espaço litúrgico: o lugar da assembleia. Por quê? É que a assembleia litúrgica não é uma simples congregação de pessoas, como qualquer outra. Uma vez constituída, mais que um mero ajuntamento de pessoas, ela é uma comunhão de cristãos e cristãs, dispostos a ouvir atentamente a palavra de Deus e celebrar dignamente a Eucaristia. É o próprio corpo de Cristo, cujos membros somos cada um de nós. E isto significa que, como tal, deve tratar-se de uma assembleia altamente participativa (SC 14).
Assim sendo, também o espaço da assembleia deve aparecer como um espaço do Cristo enquanto corpo feito de muitos membros. E que todos os fiéis reunidos possam senti-lo como tal, tanto pela disposição arquitetônica geral do espaço, como pela disposição dos bancos ou cadeiras, em que todos os membros da assembleia possam sentir-se realmente como corpo bem unido, na escuta atenta da Palavra e na participação digna da Liturgia eucarística.

D) A CADEIRA DA PRESIDÊNCIA
Na verdade, quem preside a Liturgia é o Cristo, na pessoa do presidente da assembleia litúrgica. O sacerdote que preside a Eucaristia é o sinal sacramental da presença invisível deste Cristo. Ao presidir a celebração, ao elevar a oração a Deus em nome de todos, ao explicar a palavra de Deus à comunidade, o sacerdote atua em nome deste Cristo. Por isso ele preside, ou seja, ele se senta diante de toda a assembleia, como representante do verdadeiro Presidente e Mestre, que é o Senhor Jesus.
Assim sendo, para visualizar o mistério da presidência de Cristo na pessoa do ministro (cf. SC 14), a Igreja recomenda que se coloque em destaque a cadeira de quem preside. Como vemos na IGMR: “A cadeira do sacerdote celebrante deve manifestar a sua função de presidir a assembleia e dirigir a oração” (nº 310). Em outras palavras, como já dissemos, a cadeira presidencial em destaque evoca a presença invisível do Cristo que preside a Liturgia na pessoa do ministro.


II. ESTRUTURA DA LITURGIA JUDAICA: UMA BREVE ANÁLISE DA BERAKHAH

            Berakah – Traduzida como benção, louvor, agradecimento, admiração. É um dos termos que condensa toda riqueza e originalidade do pensamento hebraico. A Berakah define a tríplice aliança: com Deus, com o mundo e com os seus semelhantes. Em relação ao homem e ao mundo, Deus é a fonte, é a norma: cria o homem e o mundo e estabelece sua modalidade de usufruto e de multiplicação.
Em relação a Deus e ao mundo o homem é o interprete e beneficiário: é objeto da atuação divina e destinatário dos bens da terra. Em relação a Deus e ao homem, o mundo é sacramento e dom: sinal da benevolência divina e dom concreto para o homem.
Com a oração de benção, o israelita reconhece estes três pólos e a qualidade de suas relações. Reconhece a Deus como origem e proprietário das coisas, o mundo como dom que deve ser aceito e partilhado, o homem com os irmãos com as quais participam do único banquete da vida. Deste modo a Berakah capta a verdadeira finalidade do mundo e se põe como condição para a realização do reino. Tudo é razão para bendizer ! Por isso, de acordo com a tradição judaica precisa-se recitar uma benção diante de qualquer coisa.
Entre todas as bênçãos que devem ser elevadas a Deus tem uma particular importância as que estão ligadas aos frutos da terra. Antes de alimentar-se com o pão da terra, o judeu reza: “Bendito sejas, Senhor nosso Deus Rei do universo, que produzes o pão da terra.” Não existe algo que não seja ocasião de uma Berakah. Até as realidades negativas, como a injustiça, a doença, em vez de levar ao desespero são motivos para benção e louvor. A Berakah é a expressão de uma nova luz. Ela é a maior das atividades porque tem o poder de fazer novas todas as coisas.
 A Berakah e a Torá: o judeu, além de bendizer o Senhor pelos frutos da terra o faz também pela Torá. Sede bendito, Senhor nosso, Rei do universo que nos deu a Torá da verdade e que plantou em nosso meio a vida eterna. Bendize-se a Torá porque ela do mesmo modo que os frutos da terra, alimenta e alegra o coração do homem. A Torá revela a finalidade dos bens da terra mediadores e dom da benevolência divina. O judeu é chamado a bendizer o Senhor diante das situações dolorosas e trágicas, não porque tem prazer no sofrimento mas porque tem a inabalável esperança messiânica

A Berakah e o Milagre: a Berakah é o reflexo desta luz secreta das coisas. Onde ela está presente cria-se o milagre, onde ela está ausente se estende a opacidade. Para quem pratica a Berakah tudo é maná, é milagre
A Berakah e o Temor: o temor é o reconhecimento de que as coisas não são somente aquilo que são mas implicam também, embora de longe algo de absoluto. O temor é a percepção da transcendência, do fato de que tudo em todo lugar faz referência Aquele que está além das coisas. A Berakah nasce do temor e produz o temor porque une as coisas ao amor de Deus colocando-as sob seu olhar criador e providente. Graças a Berakah o universo se torna um imenso santuário em que se deve penetrar e atravessar com veneração e em estado contemplativo.
A Berakah e o Dom: a benção restitui a criatura à sua situação de dom enquanto sua ausência rebaixa as coisas à sombria consistência de instrumento e de mercadoria. Jesus, dom supremo do amor de Deus ao homem além de revelar a realidade com o dom resume-a em sua pessoa e no seu mistério.
A Berakah e a Alegria: a oração de Benção , além de expressar a percepção real com o dom que deve ser assim participado, traduz também sentimentos de alegria e bem estar. Ser capaz de bendizer a Deus, antes de ser um gesto de agradecimento, demonstra um sentido de plenitude. A Berakah é um sinal de um coração pacífico e cheio de sentido. A alegria que a Berakah traz é dupla: alegria de saber que é objeto da benevolência de Deus e a percepção do mundo cheio de unidade e harmonia.
A Berakah e a Petição: além da Berakah, a liturgia judaica se estrutura envolta de um segundo pólo, que é a invocação ou petição. O judeu, a orar, não louva a Deus somente pelas suas maravilhas e por seus dons, mas também lhe suplica por suas necessidades . Louvar e invocar, admirar e pedir, agradecer e suplicar são dois pólos da prece hebraica, tanto da individual como da comunitária.
A prece de petição dá forças ao “pobre” no calvário. Conserva-lhe a fé em Deus e não os deixa sucumbir em face as decepções; dá-lhe certeza do triunfo final da bondade divina e não o deixa desesperar diante das derrotas.
Mas esta força que a oração de petição dá termina sempre com um louvor. Se um “pobre” invoca a ajuda de Deus é para poder “louva-lo e agradecer-lhe melhor”. A finalidade profunda de toda petição (seja cura individual ou a libertação de Jerusalém) é de poder cumprir a vocação de louvar e agradecer.


III. A FÓRMULA DA BERAKHAH

A respeito das diversas formas de benção, tem-se uma classificação de três categorias, cada uma com uma estrutura própria: bênçãos motivadas por objetos (“bens” concretos), bênçãos motivadas pela alegria de observar a Torá e bênçãos sem motivações particulares.

1. Bênçãos motivadas por bens concretos: São as bênçãos mais simples que se inicia com a fórmula – “Sê bendito, Senhor nosso Deus, Rei do universo” e termina com a menção da coisa ou da experiência que a motivou. Ex.: No caso da benção antes das refeições: que tiras o pão da terra; ou antes de beber um copo de vinho: que nos dá alegria com o fruto da videira.

2. Bênçãos motivadas pela alegria da Torá: São as bênçãos que são citadas antes de cumpri um mandamento e que se iniciam com fórmulas como esta: “Sê bendito, Senhor nosso Deus, que nos santificaste com os teus mandamentos.” Ex.: acender as luzes do Sábado.

3. Bênçãos sem motivações específicas e que exprimem petição ou louvor: são as bênçãos mais comuns da liturgia pública ou particular e diferem das precedentes pelo conteúdo e pela forma. Quanto à forma, elas iniciam e terminam com a mesma expressão: Sê bendito, Senhor. Quanto ao conteúdo, trata-se de afirmações diversas, que se encontram entre as duas bênçãos de abertura e de encerramento.


IV. A ESTRUTURA DA LITURGIA JUDAICA POSSUI TRÊS UNIDADES

1ª)  O SHEMÁ ISRAEL

O Shemá contém a essência da fé judaica. Consiste de três capítulos tirados da Bíblia.

O primeiro capítulo: “Ouve, ó Israel! O Senhor, nosso Deus, é o único Senhor. Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todas as tuas forças. Os mandamentos que hoje te dou serão gravados no teu coração. Tu os inculcarás a teus filhos, e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja andando pelo teu caminho ao te deitares e ao te levantares.
Atá-los-ás à tua mão como sinal, e os levarás como uma faixa frontal diante dos teus olhos. Tu os escreverás nos umbrais e nas portas de tua casa.” ( Deut. 6,4-9 ). Nessa parte falasse do uso da Tefillim e do Mezuzá .

2ª) TEFILLIM (FILATÉRIOS)

 A Torá descreve-o como um sinal, uma afirmação pública de envolvimento judaico. Ao colocar Tefillim o indivíduo dá expressão aos seus sentimentos básicos de identificação judaica e a sua importância para ele. Os Tefillim são colocados no braço, frente ao coração e sobre a cabeça. Isto significa a união do emocional e do intelectual à serviço de Deus. Homens ( maiores de 13 anos ) devem colocar Tefillim todos os dias da semana, exceto Shabbat e Festas Judaicas.

3ª) MEZUZÁ

A santidade do lar judaico é simbolizada pela Mezuzá, pequeno rolo de pergaminho, que contém os dois primeiros parágrafos do “Shemá Israel”. Enrolado o pergaminho, é ele colocado num estojo de madeira, metal ou cristal, que tem uma pequena abertura, através da qual se distingue a palavra Shaddai ( Todo Poderoso ) escrita nas costas do rolo. Fixa-se a Mezuzá no lado direito dos portais de todas as habitações em que vivem judeus, conforme as palavras bíblicas: “E as escreverás nos portais de tua casa e nos teus portões”. A Mezuzá distingue a casa judaica, fazendo lembrar aos moradores e visitantes, logo na entrada, quem é o criador de tudo o que somos e possuímos. Ela recorda o mandamento de se observar a Torá tanto em casa como fora dela.
O segundo capítulo: “Se obedecerdes aos mandamentos que hoje vos prescrevo, se amardes o Senhor, servindo-o de todo o vosso coração e de toda a vossa alma, derramarei sobre a vossa terra a chuva em seu tempo, a chuva do outono e da primavera, e recolherás o teu trigo, o teu vinho e o teu óleo; darei erva aos teus campos para os teus animais, e te alimentarás até ficares saciado. Tende cuidado para que o vosso coração não seja seduzido e vos desvieis do Senhor para servir deuses estranhos, rendendo-lhes culto e prostrando-vos diante deles.

A cólera do Senhor se inflamaria contra vós e ele fecharia os céus: a chuva cessaria de cair, e não haveria mais colheita no vosso solo, de modo que não tardaríeis a perecer nesta boa terra que o Senhor vos dá. Gravai, pois, profundamente em vosso coração e em vossa alma estas minhas palavras; prendei-as às vossas mãos como um sinal, e levai-as como uma faixa frontal entre os vossos olhos.
Ensinai-as aos vossos filhos, falando-lhes delas seja em vossa casa, seja em viagem, quando vos deitares ou levantardes. Escreve-as nas ombreiras e nas portas de tua casa, para que se multipliquem os teus dias e os dias de teus filhos na terra que o Senhor jurou dar a teus pais, e sejam tão numerosos como os dias do céus sobre a terra.” (Deut. 11,13-21) Nesse trecho os Tefillim e Mezuzá são novamente mencionados como os símbolos da observância prática dos preceitos divinos.
O terceiro capítulo: “O Senhor disse a Moisés: ‘Dizei aos israelitas que façam para eles e seus descendentes borlas nas extremidades de suas vestes, pondo na borla da cada canto um cordão de púrpura violeta. Fareis essas borlas para que, vendo-as vos recordeis de todos os mandamentos do Senhor, e os pratiqueis, e não vos deixeis levar pelos apetites de vosso coração e de vossos olhos que vos arrastam à infidelidade. Desse modo, vós vos lembrareis de todos os meus mandamentos, e os praticareis, e sereis consagrados ao vosso Deus. Eu sou o Senhor vosso Deus, que vos tirei do Egito para ser o vosso Deus. Eu sou o Senhor vosso Deus’ ” (Num. 15,37-41 ). Esse trecho faz referência ao Tallit .

4ª) TALLIT

É uma peça de vestimenta em forma de escapulário distintamente judaica que é um constante lembrete de todas as leis da Torá. É composta de quatro fios duplos de lã, linho ou seda, as sisit, que pendem dos quatro cantos do manto de preces. Mas, como as roupas atuais são bem diferentes das de outrora, e como nós não mais vestimos mantos quadrados, amarramos as sisit ao chale branco que os homens vestem para as orações e a uma peça menor de fazenda, pequeno Tallit . O Tallit ( como também o tefillim ) obedece a uma lógica teológico-pedagógica: como sinal e instrumento de santidade; mais do que simplesmente recordar o que o Senhor quer, faz viver em santidade à qual o Senhor chama.

O judeu religioso deve proclamar o Shemá duas vezes ao dia: “Quando te deitas e quando te levantas” e essa proclamação é acompanhada das bênçãos, respectivamente, da manhã (duas Berakah antes e uma depois ) e da tarde ( uma Berakah antes e duas depois ).

5ª)  A TEFILLAH

A tefillah é, depois do Shemá, o segundo momento central da prece hebraica. Compõe-se de uma série de bênçãos breves ou orações feitas três vezes ao dia: de manhã, ao meio-dia e à tarde, e é a “oração por excelência ” da liturgia hebraica. Intimamente ligada ao Shemá, de acordo com a tradição rabínica, ela é recitada logo depois da benção final do Shemá.
A tefillah é composta de 19 bênçãos (antigamente 18) subdividida em três grupos ou seções:

1. As três primeiras bênçãos
São uma introdução e se concentram no tema do louvor a Deus, glorificando-o por seus atributos principais: amor ( hesed ), força ( gevurah ) e santidade ( qedushah ).

2. As últimas três bênçãos
É definida como benção de agradecimento, apesar de conter uma súplica de restauração do templo de Jerusalém e do dom da paz.

3. As treze bênçãos intermediárias
São o coração da tefillah e constituem uma série de pedidos a Deus, a fim de que Ele conceda a seu povo tudo o que é necessário para a vida. São a “Carta Magna” do judaísmo, através da qual conhecemos o que ele tem como verdadeiramente importante, que pode-se dividir em : bens espirituais – a inteligência, a penitência e o perdão; bens materiais – a liberdade pessoal a saúde, o bem-estar, a unificação dos dispersos; bens sociais – a justiça integral, o castigo dos inimigos, a recompensa dos justos, a Nova Jerusalém, o Messias e o atendimento das preces.



3ª) . A QERI’AT TORÁ (A “LEITURA DA TORÁ”)

A Torá (Lei, ensinamento) é composta do Pentateuco: Gênesis, Êxodo, Números, Levítico e Deuteronômio.
A Tanah é um livro utilizado pelos judeus que é composto pela Torá e os livros do Antigo Testamento. Os judeus não reconhecem os seguintes livros como inspirados: Judite, Tobias, Macabeus I e II, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc.
Além do Shemá Israel e da tefillah, outro núcleo da liturgia hebraica é a qeri’at Torá feita na sinagoga às segundas-feiras, nas terças e aos sábados, nos dias festivos e semifetivos. Entre os vários imperativos do Shemá há um particularmente importante: “Tu os inculcarás a teus filhos, e deles falarás, seja sentado em tua casa, seja andando pelo teu caminho ao te deitares e ao te levantares”. Se o mandamento bíblico quer inculcar o amor à Palavra de Deus em todas as gerações, a qeri’at Torá, feita na sinagoga em determinados dias e de acordo com modalidades particulares, responde a este mandamento: com ela, o povo de Israel nutre-se da Palavra de Deus, lendo-a e comentando-a.
Não se pode compreender o judaísmo sem a Torá, que é sua alma e substância, seu segredo e seu fascínio. A sua importância central na tradição hebraica é expressa mais pela linguagem figurada do que pela argumentação racional. Devido a sua importância, a Torá é lida e comentada na sinagoga três vezes por semana.


V. COMENTÁRIO SOBRE UMA ÉPOCA LITÚRGICA:  O MISTÉRIO CELEBRADO NOS PRIMEIROS SÉCULOS DA NOSSA ERA.

É importante termos presente que para compreendermos LITURGIA devemos, antes de tudo, fazer uma análise do que aconteceu nos primeiros séculos da Igreja, isto é, como a LITURGIA era celebrada pelos primeiros cristãos, para que ao chegarmos na nossa era, compreendamos, à luz do Vaticano II, o significado deste mistério celebrado, que por sua vez significa experimentar a presença de Deus na nossa vida. 
É a ação de Deus na qual Ele entra em comunhão com o mundo e com os homens. De um lado Deus se revela e se comunica ao homem, e de outro, o homem entra em comunhão com Deus. Deus é mistério em si mesmo porque é comunhão de vida, de amor e felicidade em si mesmo. Para a Sagrada Escritura, os Padres da Igreja e a Liturgia, mistério é o plano de Deus de fazer o ser humano participante de sua vida, de salvar a humanidade. Além disso, é visto sob o aspecto divino da salvação. Neste caso, o mistério de Deus é revelado em seu Filho Jesus Cristo, o Verbo Encarnado, isto é, que se fez humano para a nossa salvação. Ao se revelar em Jesus Cristo, Ele comunicou a sua vida eterna mais íntima ao ser humano. Para compreendermos o mistério é necessário termos fé, pois este brota da nossa espiritualidade. Depois deste ensaio, vamos estudar a liturgia nas suas origens.


V.I. A LITURGIA NOS PRIMÓRDIOS DO CRISTIANISMO

             Na era apostólica, mais conhecida como tempo dos apóstolos, Jesus e seus seguidores praticavam a religião judaica. Participavam das celebrações litúrgicas (templo, sinagoga, oração e festas). Jesus era um homem muito piedoso, assim como seus seguidores (apóstolos) e participavam assiduamente da religião de seu povo.
            Jesus e os apóstolos não vieram romper com a liturgia antiga, pelo contrário, vieram dar pleno cumprimento (Mt 5,17), aperfeiçoá-la. Assim sendo, deu uma nova orientação aos ritos judaicos já existentes. Portanto, a nossa liturgia cristã é uma continuidade da liturgia hebraica. O nosso referencial é Jesus de Nazaré. A partir do mistério de Cristo, aconteceu uma cristianização dos elementos ritualizados herdados, surgindo daí a liturgia cristã. Os elementos rituais são:



São elementos rituais riquíssimos que demonstram como a nossa liturgia está enraizada na cultura do Antigo Testamento. Em contrapartida, há aspectos de rupturas entre a liturgia cristã e a liturgia judaica. Em alguns aspectos, Jesus mantém uma crítica em relação à ordem cultual da religião judaica. Jesus quer resgatar o fundamento do culto, a saber, o amor que se desdobra na prática da justiça, da misericórdia, do perdão (cf. Mt 9,13). Também os discípulos de Jesus, após a ascensão, continuavam participando do templo, porém, não participavam dos sacrifícios rituais. Como judeus cristianizados, eram convictos de que a morte-ressurreição de Jesus havia superado o sacrifício da lei antiga. O templo passou a ser o verdadeiro Templo que agora é Cristo. A partir de então, a Igreja apostólica começou a organizar-se criando formas próprias de culto. Uma das características desse novo grupo era a reunião (aspecto comunitário): É a liturgia dos primeiros cristãos (cf. Mt 18,20, At 4,31; 20,7-8).
            Em At 2, 46 narra-se o momento da refeição, onde partiam o pão e comiam com simplicidade e alegria. Junto da reunião tinha o momento da oração da benção (oração eucarística: ação de graças) e o ensinamento dos apóstolos.
            Outro aspecto interessante é que costumavam realizar as reuniões no primeiro dia da semana. A este dia, deram o nome de “dia do Senhor” (domingo), por ser o dia em que se recorda a ressurreição do Senhor. Mais tarde surgiu a festa anual da Páscoa, quando Paulo dizia: “Cristo nossa Páscoa foi imolado” (1 Cor 5,7). A imolação do Cristo substituiu a do cordeiro da Páscoa anual hebraico.  Mais tarde surge também o batismo que já havia sido prefigurado por João Batista (batismo no Espírito no nome de Jesus).
            Embora não tendo uma regulamentação estável da liturgia, a comunidade apostólica já dispunha de algumas formas litúrgicas próprias: oração, batismo e eucaristia.



REFERÊNCIAS

Israel em Oração – Carmine Di Sante, Edições Paulinas, 1989.
– Apostila “Introdução à Língua Hebraica e à Cultura Judaica” – Jane Bichmacher de Glasman, 1987.